Quando os defensores do aborto concluem que não conseguem defender as suas linhas de delimitação, entre a morte e a vida, atacam a linha dos defensores do direito à vida: a concepção. Assim, é fácil ouvir coisas do tipo: «E porque não reconhecer direito à vida ao espermatozóide e ao oocito? Também são vida humana, tal como o zigoto.»

Sobre isto diga-se o seguinte:

1. Os defensores do direito à vida não pretendem que as bactérias têm direito à vida, não dizem que cortar o cabelo é um genocídio nem lutam contra amputações. Defendem, exclusivamente, que todos os seres humanos têm direito à vida. Portanto, a discórdia entre quem defende o direito à vida e quem o combate, resulta do facto dos primeiros considerarem que todos os seres humanos têm direito à vida, enquanto que para os segundos só alguns seres humanos (os que forem também pessoas) têm direito à vida. Logo, trata-se de uma questão que só envolve direitos de seres humanos. Um espermatozóide não é um ser humano: é uma célula de um ser humano.

2. Mas os defensores do aborto costumam defender a ideia nos seguinte termos: «Como um zigoto é a união de um espermatozóide e de um oocito, se isoladamente não têm direito à vida, juntos também não deveriam ter. Colocar o início do direito à vida na concepção não tem qualquer base.» De facto assim seria se o valor do todo fosse a soma do valor das partes. Mas todos sabemos que não é assim. Nenhuma das células de uma pessoa, individualmente, tem direito à vida. Se o direito do todo fosse a soma dos direitos das partes, nenhuma pessoa teria direito à vida.

3. Não se pode partir do direito do ser humano para chegar ao direito de cada uma das células do ser humano; e, reciprocamente, não se pode partir do direito das partes para chegar ao direito do todo. O zigoto tem direito à vida porque é um ser humano. Não pelo facto das suas partes terem direito à vida. O mesmo se passa em muitas outras situações. Um quadro de Rembrandt é protegido não pelo facto das suas partes, tinta e madeira, serem protegidas (que não são) mas pelo facto de ser uma tinta que foi colocada sobre uma madeira de determinada forma.

4. Além disso, o espermatozóide e o oocito estão no fim da sua existência. Se não se unirem, morrem. Mas o que resulta da união destas duas células é um ser diferente de ambos que está no início da sua vida. Enquanto, todo o desenvolvimento do ser humano é um contínuo onde nada desaparece para que algo diferente apareça, na fecundação o que havia (espermatozóide e oocito) desaparecem, deixam de existir, para dar origem a um novo ser: um ser humano. Portanto, há uma diferença radical entre a concepção e qualquer um dos pontos do desenvolvimento de um ser humano. É certo que o zigoto ainda não anda de bicicleta (como muitos outros seres humanos), é certo que ainda não tem cabelos brancos (como muitos outros), é certo que ainda não tem rugas (como muitos outros), é certo que ainda não fala (como muitos outros), mas é um ser humano num determinado estádio do seu desenvolvimento, como qualquer um de nós. Aceitar o aborto é fazer discriminação de seres humanos a partir do seu estádio de desenvolvimento. Tanto se pode matar o que ainda é muito pequeno, como o que já é muito velho ou muito magro, ou muito gordo, ou que tem muitas rugas, ou ou ou. É a morte de seres humanos à mão de seres humanos.

5. O espermatozóide e o óvulo são necessários para a pessoa. Mas o que resulta da sua união é a própria pessoa. Qualquer adulto pode dizer que já foi adolescente, já foi criança, já foi recém-nascido, já esteve dentro do útero da sua mãe. Contudo, ninguém poderá dizer que já foi espermatozóide, porque isso não é verdade.

6. Está em questão saber qual a linha que separa os seres humanos executáveis dos não executáveis. Se se rejeitar o momento da concepção, procurando uma linha que lhe seja posterior, caímos no estado actual em que não se identifica linha nenhuma. Logo, ao aceitar a morte para A e ao aceitar que não o conseguimos distinguir de B, estamos a aceitar que a morte de B é uma questão de tempo. Se soubermos que cada um de nós é esse B que não se consegue distinguir do bebé abortado, teremos de concluir que a nossa morte é uma questão de tempo…

(João Araújo, “Aborto, sim ou não?”)