aborto e maus tratosPor: Theresa Karminski Burke e David C. Reardon

Theresa Karminski Burke, Ph.D., é psicoterapeuta. Os casos relatados neste artigo são extraídos do seu livro Forbidden Grief. David C. Reardon, Ph.D., é especialista em bioética e director do Elliot Institute.

Os especialistas estão de acordo em que nos últimos 25 anos os maus tratos a crianças aumentaram de forma dramática. Só entre 1976 e 1987 houve um aumento de mais de 330% no número de casos de maus tratos registados [nos E.U.A.]. Apesar de uma parte desse aumento se dever a uma melhoria no processo de registo, os especialistas concordam em que esses números reflectem um aumento real dos casos de maus tratos.

Esses números contradizem de forma clara a afirmação dos defensores do aborto de que o aborto de crianças “não desejadas” actua como forma de prevenção dos abusos sobre crianças. Esquecendo a falta de lógica evidente do argumento – de que é melhor matar crianças do que bater-lhes – não há um único estudo que suporte tal teoria. Pelo contrário, existe uma associação estatística clara entre o crescimento do número de casos de aborto e do de maus tratos sobre crianças. A investigação estatística e clínica não só suporta essa associação como estabelece uma relação causal entre o aborto e os maus tratos.(1)

Esses estudos académicos, como toda a investigação, podem ser criticados como não sendo suficientes para provar que o aborto cause maus tratos sobre crianças. No entanto, essas conclusões são também suportadas pelos testemunhos de mulheres e homens que relataram uma correlação directa entre os seus sentimentos depois do aborto e maus tratos emocionais e físicos sobre os seus filhos vivos.

Por exemplo, uma mulher descreveu sentimentos de enorme raiva sempre que o seu bebé recém-nascido chorava: “Eu não compreendia porque é que o seu choro me deixava tão furiosa. Era uma bebé encantadora e tinha uma personalidade calma. O que não percebia na altura era que eu odiava a minha filha por ela ser capaz de fazer todas as coisas que o bebé que perdi [abortado] nunca poderia fazer.”(2)

As razões para os maus tratos sobre crianças são complexas e não podem ser inteiramente tratadas neste artigo. No entanto, se o aborto contribuiu para sentimentos de depressão, auto-desprezo, ansiedade e raiva entre as mães e os pais, já para não falar em abuso de drogas, os seus filhos terão certamente um preço a pagar.

Abusos fatais

Em algumas circunstâncias o aborto pode levar a um total colapso emocional com resultados trágicos. Por exemplo, Renee Nicely de New Jersey experimentou, no dia seguinte ao seu aborto, um “episódio psicótico” que resultou no espancamento mortal do seu filho de 3 anos, Shawn. Disse ao psiquiatra que “sabia que o aborto estava errado” e “devia ser punida pelo aborto.” O psiquiatra, que era testemunha de acusação, testemunhou que o homicídio estava claramente relacionado com a reacção psicológica de Renee ao seu aborto. Infelizmente, a vítima da sua raiva e auto-desprezo foi o seu próprio filho.(3)

Uma tragédia semelhante ocorreu apenas uma semana após o segundo aborto de Donna Fleming. Deprimida e perturbada, Donna “ouvia vozes” na sua cabeça e tentou matar-se e aos seus dois filhos saltando da ponte de Long Beach, na California. Donna e o seu filho de 5 anos foram salvos; o filho de 2 anos morreu. Mais tarde Donna disse que tentou matar-se e aos seus filhos para “reunir a família”.(4)

Não há razão para pensar que sejam casos isolados. De facto, nos próximos anos pode vir a ser provado que o trauma pós-aborto foi uma causa importante do aumento dramático dos casos de abusos sobre crianças nas últimas duas décadas.

O Dr. Philip Ney, psiquiatra e professor da Universidade da British Columbia, foi sem dúvida quem estudou mais longamente a relação entre o aborto e subsequentes maus tratos sobre crianças. A maior parte da sua análise, e a de outros que estudaram o problema, centrou-se no papel do aborto na destruição dos laços afectivos com os outros filhos; no enfraquecimento do instinto materno; na redução da resistência à violência, em particular para com crianças; e nos altos níveis de cólera, raiva e depressão. É provável que todos esses factores tenham contribuído para os níveis crescentes de maus tratos sobre crianças que se seguiram à liberalização do aborto.

Neste artigo pretendemos continuar o trabalho do Dr. Ney, e de outros, examinando com mais detalhe os comportamentos compulsivos relacionados com abusos sobre crianças que possam constituir uma reconstituição do aborto.

Porquê reconstituir o trauma?

As experiências traumáticas são por definição esmagadoras, são “demasiado” para uma pessoa lidar e compreender. A resposta ordinária ao trauma consiste em banir a experiência da mente – fugir dela, esconder-se, ou reprimi-la. Num primeiro nível, as vítimas de um trauma querem simplesmente esquecê-lo e deixar definitivamente para trás a experiência.

No entanto, em conflito com esta reacção de rejeição está também o sentimento humano igualmente forte de querer perceber as suas experiências e de procurar um sentido para elas. Logo, apesar de uma pessoa conscientemente escolher evitar pensar sobre o sucedido, o seu subconsciente insiste em chamar a atenção para o trauma. O seu subconsciente sabe que um trauma mal resolvido é um “negócio inacabado”. Para que seja superado, o horror do trauma tem de ser exposto, proclamado e compreendido.

Esta tensão entre a necessidade de esconder o trauma e a necessidade de o expor está no núcleo de muitos sintomas psicológicos do trauma pós-aborto. A reconstituição simbólica é uma das formas que o subconsciente procura para simultaneamente satisfazer essas duas necessidades: de expor o trauma e de o esconder. A reconstituição permite à pessoa expor o trauma com a esperança de que a exposição leve à sua compreensão e domínio. Ao mesmo tempo, como o trauma é reconstituído sob uma máscara simbólica, a essência do trauma fica ainda escondida e protegida. Por outras palavras, a reconstituição permite à pessoa pedir ajuda mascarando a razão pela qual precisa dessa mesma ajuda.

Uma especialista em trauma, a Drª Judith Lewis Herman, observou que a reconstituição simbólica do trauma serve para “simultaneamente chamar a atenção para a existência de um segredo inconfessável e desviar a atenção dele. Isto é manifesto na forma como a pessoa traumatizada alterna entre sentir-se entorpecida e reviver o acontecimento. A dialéctica do trauma gera alterações complexas e estranhas de consciência… Resulta em sintomas erráticos, dramáticos e frequentemente bizarros…”(5)

Pesadelo no infantário

Para as mulheres traumatizadas pelo aborto, os maus tratos sobre crianças são um símbolo natural para a reconstituição de um aborto mal resolvido. Por exemplo, Rhonda era atormentada com a culpa e a vergonha de ter abortado cinco crianças. Começou a acreditar que Deus queria que ela se redimisse do seu passado dando amor a crianças que tivessem necessidade de quem tratasse delas. Tentou cumprir essa obrigação fazendo um infantário na sua própria casa.

Enquanto Rhonda tentava dominar o seu trauma psíquico dando amor às oito crianças sob os seus cuidados, estas deixavam-na completamente exausta. Frequentemente chegava ao fim do dia irritada e ansiosa. Rhonda relatou que ocasionalmente perdia a cabeça com os bebés e descobria-se a bater-lhes ou a sacudi-los numa mistura de fúria e frustração. Depois dessas explosões de violência, Rondha sentava-se a um canto a chorar, convencida de que era uma pessoa horrível.

Colocando-se numa situação de stress com esses bebés, Rondha recreou os seus sentimentos de impotência e de incompetência com crianças, temas dominantes nas suas decisões em abortar. As suas repetidas perdas de controlo com as crianças confirmaram os seus sentimentos de auto-desprezo e desgosto. Os padrões de maus tratos, seguidos de vergonha, sentimentos de culpa e sofrimento, espelhavam sob o ponto de vista emocional as suas experiências de aborto com uma grande precisão.

Reconstituição através de pensamentos intrusivos

Dianne, outra paciente à procura de aconselhamento pós-aborto, também teve um infantário. Tratava das crianças em sua casa. Dianne relatou pensamentos intrusivos sobre arrancar braços aos bebés dos seus encaixes. Sentia um forte desejo de agarrar nos bracinhos e de os arrancar dos corpos. Tais pensamentos causavam-lhe ansiedade e sofrimento terríveis. Cada vez que Dianne era confrontada com esses pensamentos traumáticos ficava esmagada de horror e tristeza. Cada episódio perturbador parecia-lhe confirmar que era uma pessoa repugnante e enchia o seu coração de um sofrimento doentio.

Felizmente, no aniversário do seu aborto, Dianne finalmente reconheceu a relação deste com esses pensamentos. Num momento angustiante a verdade sobre o que lhe estava a acontecer veio ao de cima e ela começou a chorar com o desgosto da sua perda. Felizmente Dianne procurou ajuda para lidar com esse trauma reprimido e todos os pensamentos que a assolavam cessaram.

Pensamentos intrusivos como os de Dianne são comuns em vítimas de um trauma. Quando um desses pensamentos advém é muito difícil tirá-lo da cabeça. Mais tarde a pessoa questiona-se: “De onde é que essa imagem veio?” Como os sonhos e fantasias, os pensamentos intrusivos contêm muitas vezes símbolos complexos do trauma.

Com o trauma do aborto, os pensamentos intrusivos podem inclusivamente incluir símbolos do próprio procedimento do aborto. Kathy relatou a seguinte história:

“Eu adoro os meus filhos. Não há nada que não fizesse por eles. Eles são tudo no mundo para mim. Mas tenho pensamentos horríveis que me mortificam. É difícil até falar sobre isso. Posso estar na cozinha a preparar o jantar e vêem-me pensamentos sobre envenenar a sua comida. Imagino-os a reagir ao veneno e eu a correr com eles para o hospital. Fico louca com sentimentos de culpa e de vergonha. Depois imagino os médicos a descobrirem que eu fiz de propósito. Chamam o meu marido e dizem-lhe que eu não devia ter crianças… que eu as tinha tentado matar. Esses pensamentos assaltam-me a cabeça. São completamente loucos… Não posso crer que tenha tais pensamentos. Fazem-me detestar-me.”

Kathy inicialmente procurou aconselhamento devido a ataques de pânico. Começou a relatar esse tipo de pensamentos, semana após semana, com enorme aflição. Era difícil sequer mencionar o assunto sem chorar. Não foi nenhuma surpresa descobrir que o seu passado incluía um aborto por solução salina. Ficou visivelmente abalada quando falou sobre o assunto. Quando lhe perguntei sobre como se opera um aborto por solução salina, descreveu o procedimento como um “envenenamento” do feto. [O procedimento consiste em injectar uma solução salina no útero que envenena e queima o bebé, causando-lhe uma agonia que pode durar várias horas. N. do E.]

Todos os sintomas de Kathy apareceram depois do seu aborto. Através desses pensamentos intrusivos, Kathy revivia continuamente a experiência emocional desse mesmo aborto. Os episódios seguiam-se, magoando ou matando os seus filhos vivos, e terminando com um sentimento de vergonha. A sua dor tinha-se complicado e estava a vir à superfície através dessas fantasias intrusivas.

Kathy é uma das mulheres mais gentis e doces que já conheci. Sei que foi imensamente difícil para ela enfrentar esses pensamentos terríveis. Estou feliz por poder dizer que essas impressões, que se prolongaram durante anos, terminaram quando fez tratamento ao trauma pós-aborto.

O caso de Emily é semelhante. Fez um aborto doze anos antes de se casar. Depois disso recusou-se a pensar no assunto ou a fazer luto. Essa fuga aos seus sentimentos funcionou bem até que começou a ter filhos. O seu primeiro flashback atingiu-a violentamente quando fez a primeira ecografia grávida de uma criança “desejada”. Com o andar do tempo, tinha frequentemente pensamentos intrusivos relacionados com o seu aborto quando olhava para a cara dos seus bebés. Passado algum tempo, começou também a experimentar pensamentos habituais, obsessivos e assustadores sobre magoar os seus filhos. Imaginava-se a esfaquear os seus filhos, um por um, a sufocá-los com almofadas, e a estrangulá-los.

Emily é uma mãe encantadora e devotada, mas não conseguia fugir a esses pensamentos violentos. Com o avançar do tempo tornaram-se mais elaborados e reais. Emily não conseguia perceber o que se estava a passar. Estava chocada de se saber capaz de tais pensamentos. Obviamente não tinha qualquer intenção de os levar à prática. Mas os seus pensamentos intrusivos eram como animais raivosos, que perseguiam, arranhavam e corroíam a sua consciência. Deixavam-na perturbada, louca e envergonhada. Procurava desesperadamente silenciar esses animais perigosos na sua mente. Felizmente, todos os sintomas ficaram aliviados quando Emily procurou tratamento para o trauma pós-aborto.

Conclusão

Os testemunhos de mulheres em primeira mão, combinados com casos de estudo terapêuticos e relatos de casos criminais de maus tratos e até homicídios de crianças, mostram de forma conclusiva que o trauma do aborto pode criar e agravar tendências para abusos sobre crianças. Apesar de a maior parte das mulheres que têm pensamentos intrusivos sobre maus tratos a crianças serem provavelmente capazes de lhes resistir, o facto de ocorrerem é alarmante tanta por causa das crianças como delas próprias. Mesmo que apenas uma pequena fracção dos milhões de abortos realizados cada ano levem a maus tratos sobre crianças, em casa ou em infantários, este problema tem necessariamente de nos preocupar.

Este artigo apareceu originalmente em The Post-Abortion Review, 6(1), 1998. Copyright 1998, Elliot Institute. http://www.afterabortion.org/

(retirámo-lo de “Factos da Vida”)

NOTAS 1. Ney, P. Fung, T., Wickett, A.R., “Relationship Between Induced Abortion and Child Abuse and Neglect: Four Studies,” Pre- and Perinatal Psychology Journal 8(1):43-63 Fall 1993; Benedict, M., White, R., and Cornely, P., “Maternal Perinatal Risk Factors and Child Abuse” Child Abuse and Neglect 9:217-224 (1985); Lewis, E., “Two Hidden Predisposing Factors in Child Abuse,” Child Abuse and Neglect 3:327-330 (1979); Ney, P., “Relationship Between Abortion and Child Abuse,” Canadian J. Psychiatry 24:610-620(1979). 2. Reardon, D., Aborted Women, Silent No More (Chicago, Loyola University Press, 1987) 130. 3. Ibid, 129-30. 4. McFadden, A., “The Link Between Abortion and Child Abuse,” Family Resources Center News (January 1998) 20. 5. Judith Lewis Herman, M.D., Trauma and Recovery (NY: Basic Books, 1992) 1-2.

A Doutora Theresa Karminski Burke, autora do artigo, foi uma das criadoras dos retiros da “Vinha de Raquel”, “uma jornada psicológica e espiritual para a cura do trauma pós-aborto”. Estes retiros são realizados em Portugal pelo Serviço de Defesa da Vida do Patriarcado de Lisboa.

Contacto: Serviço Diocesano da Defesa da Vida (Patriarcado de Lisboa)

Tel.: 91 735 4602 – vinhaderaquel@email.com – http://www.rachelsvineyard.org/