tens de abortar

 

Natália tinha 27 anos quando ficou grávida em consequência de uma única relação sexual com um parceiro que não voltou a ver. A pressão social e do meio em que vivia levou-a a dirigir-se à Clínica Dâtor para abortar com a pílula RU-486. À saída, o seu pesadelo ainda mal tinha começado.

A minha história começou quando eu tinha 23 anos. Trabalhava numa empresa de publicidade em Madrid e ganhava um bom ordenado. Foi aí que conheci um rapaz que era auditor de contas. Chamava-se Patrick e viajava constantemente de um escritório para outro em Espanha. Apesar de eu ter tido a impressão de que ele não era muito bom da cabeça, começámos uma relação.

Um dia, mudaram-me de departamento e não me fizeram contrato, de modo que me zanguei com eles e procurei outro emprego. Encontrei um anúncio num jornal em que pediam telefonistas espanholas. Quando lá fui, era uma agência de contactos de raparigas… E pensei: “Onde eu me fui meter!” Mas entrei e acabei por aceitar o trabalho. Agradava-me porque nunca via os clientes, nem eles me viam a mim. Pareceu-me discreto. Ganhava o suficiente para pagar a renda e ainda para alguns caprichos. O Patrick conseguiu localizar-me na nova empresa e, numa das vezes em que nos vimos, tivemos relações sexuais. Foi a única vez, mas bastou: com um atraso de dois dias, soube logo que alguma coisa se passava. Sempre fui certa, nunca tinha tido um atraso assim. Não queria suspeitar de uma gravidez, mas os dias passavam e o período não vinha.

Havia uma rapariga espanhola que trabalhava como empregada de limpeza no escritório e que ficara sem casa. Tive pena dela e propus-lhe que fosse para minha casa. Esteve lá durante dois meses. Lembro-me de que, um dia, comentei que tinha estado com o Patrick e ela perguntou-me:
– Não estarás grávida?
Desatei a rir.
– Que disparate! Havia de ser muita coincidência, ficar grávida na única vez em que fui para a cama com ele…

No entanto, talvez por intuição, informei-me junto de colegas minhas que tinham sido mães ou que tinham abortado. Embora não percebessem porque lhes fazia perguntas por causa de um atraso tão pequeno, aconselharam-me a comprar o teste na farmácia. Fui logo e pedi o mais fiável do mercado. O farmacêutico explicou-me como funcionava: se aparecesse uma risca vermelha, estava grávida. Ainda que fosse apenas ligeiramente rosada, também significava o mesmo. Quando o fiz, apareceu uma mancha vermelha escura.
Caí ali mesmo, na casa de banho do emprego. Pus-me a chorar. Até as minhas colegas se assustaram e interrogavam-se:
– O que é que ela tem?

Ainda assim, queria acreditar que era engano. No regresso a casa, comprei outro teste, para ter a certeza. E novamente deu positivo. A caminho de outra farmácia, disse para comigo: ” Natália, o facto de tu não aceitares não significa que não aconteça”. Foram dias terríveis. Eu vivia do meu trabalho, que me permitia pagar o andar. Mas, se levasse por diante a gravidez, teria de deixar de trabalhar e, claro, não poderia pagar a renda, nem comer… E, quanto ao pai, nem sequer podia contactá-lo. O Patrick andava sempre a viajar de um lado para o outro e não queria ter telemóvel. Telefonar para casa dele ou para o emprego era quase sempre uma perda de tempo. Nem sequer cheguei a falar com ele. Algum tempo depois, soube que estava em processo de separação da verdadeira companheira, de quem eu, obviamente, não sabia nada.

Também soube que, para além de alcoólico – coisa que já sabia -, o Patrick era toxicodependente. E por isso não estava eu disposta a passar, apesar de ele sempre me ter tratado muito bem.

Lembro-me de que fui a Alicante ver as minhas amigas. Empenhei-me em vê-las a todas ao mesmo tempo e disse-lhes:
– Vão ser tias.
A primeira coisa que fizeram foi uma cara de estranheza. Depois disseram-me:
– Tens de abortar! Como é que te vais governar com uma criança?
– Pois é… – disse-lhes eu – mas não tenho coragem.
– O que vais fazer? E o pai?
– Não consigo localizá-lo – queixei-me.
E a coisa ficou assim.

Mas, quando regressei a Madrid, comecei a sentir-me mal, com os incómodos típicos da gravidez: enjoos, tonturas… Um dia, estive tão mal que não parei de vomitar. Tive de telefonar para o 112 e a médica que me viu obrigou-me a ir para o hospital de ambulância. Fizeram-me uma ecografia. Já estava grávida de cinto semanas e a enfermeira disse ao médico:
– Veja como ele se mexe!
Eu via qualquer coisa a piscar, mas não conseguia distinguir.

A enfermeira explicou-me que “aquilo” que estava a piscar era o coração do bebé. E eu pensei: “Mas é só uma bolinha, ainda não é nada e já tem um coração a bater…”. Impressionou-me muito.

Nessa mesma noite, deram-me alta. Levaram-me numa cadeira de rodas para o corredor, onde fiquei perto do serviço de Ginecologia e Obstetrícia. Ouviam-se bebés a chorar. E eu não estava certa de conseguir suportar isso quando o meu filho nascesse. Mas, depois, pensei que teria tempo para aprender. Não queria ter a criança, mas também não queria abortar.
Uma das minhas amigas de Alicante achou-me tão mal que veio para Madrid comigo. Não parava de me dizer:
– Olha para ti! Tens de abortar, não podes continuar assim, parece que estás a morrer…

Era porque estava a ficar desidratada: não conseguia comer e vomitava a toda a hora. A minha amiga insistia. Telefonou inclusivamente para uma clínica para saber quanto custava abortar. Mas eu não tinha dinheiro suficiente. O meu ordenado já não era como dantes.

Num dia em que me sentia melhor, a minha amiga não pensou duas vezes e marcou uma consulta na Clínica Dátor, em Madrid. E emprestou-me o dinheiro. Apesar de me sentir muito mal, tive de continuar sem comer para poder fazer as análises. Passei francamente mal. Disseram-me que podia escolher entre dois métodos: por aspiração ou com a pílula abortiva. Como estava grávida exactamente de seis semanas e cinco dias, deixaram-me escolher a RU-486, a pílula abortiva, que é permitida até às sete semanas. Nunca aceitaria o método da aspiração.

Depois, vieram a papelada, as análises, a ecografia… Foi tudo feito no mesmo dia. Quando falei com o psiquiatra, expliquei-lhe:
– Vivo sozinha, os meus pais não moram cá e acho que não me vão apoiar nisto. O pai e eu terminámos a nossa relação e ele também não sabe de nada.

De maneira que, das três causas admitidas, aplicaram-me a dos “problemas psicológicos para a mãe”.

Embora eu nunca tenha estado convencida de que queria abortar, toda a gente me dizia que tinha de fazê-lo.
Está bem, não queria tê-lo, mas matá-lo também não. Estou convencida de que se a minha amiga não tivesse insistido tanto, se não me tivesse praticamente obrigado a isso, eu não teria abortado. Por dois dias, abortei; dois dias depois já não me teriam deixado utilizar a RU-486 e, então, não teria abortado. Dois dias.

A minha amiga explicou-me que tinha de tomar dois comprimidos e, quarenta e oito horas depois, outros dois. Durante esse período de tempo, teria uma hemorragia e expulsaria o embrião. Estendeu-me os dois comprimidos com uma garrafinha de água. Eu só sabia que não era capaz de os tomar.
– Não sou capaz. Desculpem, mas não vou tomá-los – disse-lhes.

A minha amiga e as enfermeiras insistiram. Que não. Que sim… E a única coisa que me passava pela cabeça era que, no momento em que os tomasse, não haveria volta a dar. Depois, mesmo que quisesse, já não poderia recuperar o meu bebé são. A enfermeira insistia porque tinha outra rapariga à espera. E eu vi-me tão ultrapassada que tomei os comprimidos sem tornar a pensar.

Quando me apercebi do que tinha feito, comecei a sentir-me mal e saí da clínica com o corpo todo a tremer. Além disso, estava sem comer havia várias horas por causa das análises e sentia-me muito fraca. A minha amiga comprou-me comida mas não fui capaz de comer nada. Não me passava na garganta e acabei por chorar. Ela dizia-me:
– Não chores aqui, aguenta-te um bocadinho, que estamos a chegar a casa. Aqui na rua vais dar nas vistas…
E ali estivemos à espera, mais de um quarto de hora, na estação do metro. A minha amiga insistia…
– Aguenta-te, estamos a chegar a casa…

Mas eu sentia-me cada vez pior. E, quando chegou o metro, as pessoas começaram a correr e formou-se uma grande multidão. A minha amiga sugeriu:
– O que é que achas de dizermos que estás grávida, para te darem o lugar?

Nesse instante, desmaiei. Ouvir aquilo foi demais para mim. Não sei o que me aconteceu, mas recordo que a primeira coisa que vi quando abri os olhos foi o mostrador do meu relógio e as pessoas a darem-me ar. Toda a gente me estava a oprimir quando chegou o segurança da estação para lavrar a acta do sucedido. Levaram-me até às bilheteiras no piso superior da estação e mandaram chamar o Samur, que demorou meia hora a chegar. Quando chegaram, a minha amiga explicou tudo o que acontecera: que estava grávida, que tinha abortado e que tinha desmaiado.

Mas a história não acabou por aqui. Quando estavam a acompanhar-me à ambulância estacionada no exterior, os dois médicos do Samur quiseram pôr-me um casaco por cima, porque eu estava a tiritar de frio. Eu não queria, e eles disseram-me:
– Não vai pôr porquê? Qualquer dia, quando o seu filho não quiser vestir o casaco, o que é que vai fazer?
E eu pensava: “Qual filho? Eu vou perdê-lo agora… “. Foi como uma punhalada no coração. Na ambulância, foram-me explicando tudo o que tinha de fazer. Deram-me um sumo de laranja e um bolo e depois voltei para casa de táxi.

“Agora, já não há nada a fazer… ”

Quando chegámos, a minha amiga ajudou-me a deitar e foi à farmácia. Adormeci e comecei a sonhar: vi uma menina que vinha na minha direcção. Tinha quatro ou cinco anos e o cabelo castanho e encaracolado preso em dois totós. Usava umas calças castanhas e uma t-shirt vermelha. Parou à minha frente e pôs-se a olhar para mim com as mãos cruzadas atrás das costa, a balançar. Deteve-se e disse:
– Adeus, mamã!

Ainda me vêm as lágrimas aos olhos quando me lembro. Sinto uma dor tão profunda que não tem explicação. É a dor de querer recuperar o irrecuperável. Este não foi o único pesadelo que tive. Houve muitos mais e mais espantosos.
Quando acordei, fui à casa de banho a pensar que não havia remédio. Ainda não conseguia acreditar no que fizera. Quando hemorragia começou, pensei: “Agora, já não há nada a fazer…

A dor que me invadia era profunda e o arrependimento enorme… Não me deviam ter deixado abortar, aqueles comprimidos deviam ser proibidos.

Passados dois dias, voltei à clínica para receber o segundo comprimido e tornei a ter tonturas. Deitaram-me numa maca, como se tivesse saído da sala de operações. A enfermeira disse-me que não percebia como podia ter tonturas se não tinha a tensão baixa, e eu disparei:
– Por acaso pensa que estou a fingir as tonturas?

Então, ela começou a mostrar-se mais compreensiva comigo:
– Teve uma gravidez com muitos enjoos?
– Tive – disse-lhe -, vomitei desde o início…

Deram-me a segunda dose e aconselharam-me a não ficar sentada. Que fizesse exercício físico e me mantivesse o mais activa possível, para ajudar os restos do feto a saírem. A enfermeira disse:
– Pode ser que saiam enquanto aqui está na clínica; mas, se isso não acontecer, tem de ir para casa, porque vamos fechar.

Fiquei até ao fim. Vi passar outras raparigas, umas muito contentes por se terem livrado do “problema” e outras destroçadas, como eu. A única coisa em que pensava era que aquilo devia estar prestes a acabar, mas não. Estive um mês inteiro com perdas de sangue. Garantiram-me que nos dias seguintes haveria de expulsar os restos, mas o tempo ia passando e no meu corpo não acontecia o que tinha de acontecer.

A minha amiga teve de regressar a Alicante e eu fiquei em Madrid, um pouco mais restabelecida. O problema era que continuava sem expulsar o feto. De maneira que, um dia, decidi dirigir-me à Fundación Jiménez Díaz, na Praça de Cristo-Rei, em Madrid, para ver o que se passava. Quando cheguei, o ginecologista perguntou-me o que eu tinha.

– Nada, é que fiz um aborto – respondi.
– Espontâneo ou não? – disse ele.
– Não – admiti.
– Pois! Quer dizer, os outros “dão a bronca” e agora tenho de ser eu a resolvê-la.
– Não me diga isso, estou destroçada… – lamentei-me.
– Em que clínica o fez?
– Na Dátor. Disseram-me que era a melhor.
– Sim, claro. Em terra de cegos, quem tem um olho é rei… – troçou.

O ginecologista explicou-me que o feto não tinha, obviamente, sido expulso, porque ficara preso. Assim sendo, extraiu-mo com uma pinça.

Mas o que ainda não contei é que, uns dias antes de ir à fundação, fui a Alicante ao aniversário duma amiga. Apanhei uma bebedeira porque sabia que assim ia poder dormir descansada. Mas, como vomitei tudo, custou-me muito. Por fim, adormeci e, curiosamente, foi essa a última vez em que tive pesadelos. O que sucedeu três dias antes de ir à Fundación Jiménez Díaz. Agora tenho remorsos, porque, se tivesse ido mais cedo, talvez o tivesse salvado. Não sei. Agora não se pode voltar atrás.

(In “Eu abortei – Testemunhos de abortos provocados”, de Sara Martín Garcia, Editora Principia)
Nota da autora: A minha participação neste livro consistiu em compilar e ordenar estes testemunhos, dando-lhes a forma de histórias e uma unidade. Todos eles são reais, embora, na maioria dos casos, os nomes utilizados sejam fictícios, para proteger a privacidade dos autores.