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Uma vez que uma mulher se torna mãe, ela será sempre mãe, tenha ou não nascido o seu filho. O filho morto fará parte da sua vida por mais longa que ela seja. O aborto não é definitivamente uma "solução fácil" de um grave problema, mas um acto agressivo que terá repercussões contínuas na vida da mulher.
Sophia de Melo Breyner Andresen e o aborto
Em 1998, Luz de Vasconcellos e Souza convidou-me para um café, depois de jantar , em casa de seus pais. Para além da Luz, estavam sua mãe, Sofia de Melo Breyner Andresen,
e [...].
Conversou-se sobre assuntos vários, entre os quais surgiu naturalmente, pela sua proximidade, o do referendo sobre a liberalização do aborto. Sofia também abordou esse tema, com a simplicidade e profundidade luminosas que lhe eram habituais. De tudo o que lhe ouvi, o que mais me marcou foi uma pequena partilha que culminou numa
breve sugestão. Disse:
«Uma vez mostraram-me fotografias de fetos abortados. O que mais me impressionou foi o seu ar de humilhação (ou de humilhados). Espalhem imagens dessas com a frase: "aqueles que ninguém quis amar"».
Já não recordo, ao certo, quais as razões ou circunstâncias que nos levaram a não concretizar a proposta que brotou do seu desabafo. Mas ela gravou-se-me de tal sorte na
mente que ainda hoje a recordo como se me tivesse sido feita há 10 minutos .
De facto, a humilhação não consiste em ser julgado por ter prevaricado, por ter cometido um crime. A grande humilhação, a maior das humilhações é não ser reconhecido e respeitado por aquilo que se é, um ser humano, uma pessoa; é ser aniquilado, na fase de maior vulnerabilidade, pela decisão despótica de quem o gerou; é ser vítima
da renúncia geral à sua protecção e da conjura comum para o destruir.
Nuno Serras Pereira
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