António considera-se um jovem do seu tempo. Com os seus 23 anos, foi um fiel utilizador do preservativo, até que um dia um deles falhou e começou a sua cobardia, como ele próprio diz. A falta de comunicação e de confiança que havia entre ele e os pais fizeram-no ver a gravidez da namorada como um beco sem saída. Mas agora reconhece que havia outra saída e está a lutar para sair da síndrome pós-aborto com ajuda de especialistas.

Toda a vida fiz rir os meus amigos. Sou um rapaz normal e comum, um estudante universitário de 23 anos que costuma tirar boas notas. Os meus pais trabalham, somos uma família da classe média. Gosto de desporto, de música, viajar, ler… Tenho muitos interesses. […]

Foi em Abril que comecei a namorar com a Pilar. Tinha acabado de terminar uma relação com outra rapariga. Demo-nos bem muito rapidamente e, além disso, gostava dela por respeitar os meus hábitos, em especial o de sair algumas sextas-feiras com os meus amigos. A Pilar era muito madura e eu sentia-me muito bem com ela. Passado um mês e meio de namoro, começámos a ter relações sexuais. Numa delas, o preservativo deve ter-se rasgado e não demos por isso. Normalmente, quando o preservativo se rasga, um dos dois repara e tomam-se precauções, mas nessa vez não notámos nada. É muito importante que as pessoas saibam que o preservativo pode falhar, que por vezes se rasga. Não há nenhum método totalmente eficaz, nem sequer a “marcha atrás”: tenho amigos a quem aconteceu o mesmo que a mim recorrendo a ela.

Passadas três semanas, continuava a não aparecer o período à Pilar. […]

Comprámos o teste de gravidez na farmácia e combinámos encontrar-nos nessa mesma tarde para estarmos juntos quando ela o fizesse. Eu queria estar com ela nesse momento. Quando deu positivo, não pude acreditar. Li as instruções várias vezes e a percentagem de erro era mínima. A Pilar estava grávida. Começou a chorar e abracei-a. Comecei a dar-lhe beijos e garanti-lhe que não a deixaria, que estávamos juntos. Mas só namorávamos há dois meses, era muito pouco tempo. Talvez isso também tenha influenciado de forma importante a nossa decisão. Embora eu sentisse um enorme carinho por ela, não tinha sequer posto a hipótese de casar… Ainda estava a conhecê-la! Passado algum tempo, entre os soluços dela e os meus abraços, a Pilar perguntou-me:
– O que é que vamos fazer? Se eu contar isto em minha casa, matam-me…

Não era dia para decidir nada, de modo que marcámos encontro para o dia seguinte, para pensarmos no assunto.

Nessa noite, nem consegui dormir. Só pensava em como nos podia ter acontecido aquilo. Não podia ser verdade: tinha-se rasgado o preservativo, não tínhamos reparado nisso e agora ela estava grávida! Não podia acreditar. Ao pensar no teste que tinha dado positivo, vinha-me à cabeça a imagem da minha mãe, que em várias ocasiões me tinha dito: “Se me disseres que engravidaste uma rapariga, dás-me o maior desgosto da minha vida!”

Passavam as horas nessa noite e eu continuava a pensar na minha mãe: “Se, com a tua idade, engravidares uma rapariga, vais estragar a tua vida para sempre… “.

Até então, tinha-me parecido boa, essa forma de educar. Pensava realmente que, se lho dissesse, lhe ia pregar o maior susto da vida dela. Agora sei que não é assim. E estou convencido de que é um erro educar dessa maneira. Esse medo da minha mãe foi o que mais influenciou a decisão, pelo menos no que me diz respeito. Mas não a culpo por isso, ela é uma mulher nervosa, algo ansiosa e depressiva. Além disso, é o que a sociedade ensina: a gravidez é um problema que é preciso evitar.

De repente, dei-me conta de que os nossos pais nem sabiam do nosso namoro: tínhamo-lo ocultado para podermos ter intimidade. Por isso, nenhum de nós pensou em dizer o que quer que fosse sobre a gravidez. Ambos tínhamos medo do que pudesse acontecer. Decidi resolver eu o problema sozinho. Ouviria o que a Pilar pretendesse fazer e apoiá-Ia-ia na decisão. Agora sei que isso foi um erro. Se a mulher não quer prosseguir com a gravidez, o homem tem todo o direito de lutar contra essa opção.

Quando acordei no dia seguinte, verifiquei que nada do que me tinha acontecido fora um sonho; a situação estava mesmo a passar-se comigo. Mas tanto fazia: apoiaria a Pilar, fosse qual fosse a sua decisão. Quando nos encontrámos nesse dia, assegurei-lhe que não me iria separar dela e perguntei-lhe o que queria fazer.
– Eu, agora, não me vejo preparada para ser mãe – respondeu.

Eu, francamente, compreendia-a. Os pais dela nem sequer me conheciam. Como reagiriam quando soubessem que, aos 20 anos, ela estava grávida de um rapaz de quem não sabiam nada? Abracei-a e disse-lhe:
– Se não quiseres, não há razão para o teres. Mas temos de resolver isto o quanto antes.

Agora reconheço que estava a pensar no meu próprio descanso mental. Quanto mais cedo a Pilar abortasse, mais depressa me livraria do problema. Não podíamos andar às voltas nem perder tempo. Além disso, também tinha ouvido dizer que quanto mais tempo de gravidez passasse, maior seria o risco para a saúde da mãe.

Na altura de procurar uma clínica, seguimos o conselho duma amiga da Pilar que também abortara algum tempo antes. Fomos lá dois dias depois de sabermos o resultado do teste de gravidez. Íamos resignados: pensávamos que era a única coisa que podíamos fazer. Quando chegámos à recepção, dissemos à enfermeira, como se fosse a coisa mais normal deste mundo, que queríamos uma consulta para uma interrupção voluntária da gravidez. Depois de várias perguntas, a enfermeira informou-nos de que a Pilar estava grávida de cinco semanas e que, nesse estado, custava 300 euros: mas, se quiséssemos anestesia geral, seriam 390 euros. Pensámos que era melhor esta opção e pagámos adiantado, a meias. Era uma quantia pequena e podíamos pagá-la perfeitamente. Nesse dia, nem sequer foi vista por um médico nem assinámos nada.

Perguntava a cada momento à Pilar como se sentia e ela respondia-me sempre o mesmo:
– Normal…

Tínhamos de esperar quatro dias e eu pensava que não havia outra solução. Ela repetia-me sempre os problemas que havia para não prosseguir com a gravidez: teria de dizê-lo em casa, os pais eram muito tradicionalistas, como seria ridícula a barrigona… A Pilar garantia-me que o pai deixaria de lhe falar. Eu pensava que, comigo, ficariam desiludidos para o resto da vida. Durante esses quatro dias fui às aulas, mas não ouvia nada. Com a Pilar passava-se o mesmo. Lembro-me de que, dois dias antes do aborto, ela me disse:
– Lamento que tenhas de passar por tudo isto por minha causa.

E chegou o dia do aborto. Seria um pesadelo rápido: em duas horas e meia, tudo estaria terminado. Só faltava uma manhã de preocupação. Estávamos os dois juntos, mas nervosos. A enfermeira recebeu-nos na recepção e perguntou à Pilar se tinha seguido a instruções necessárias para a anestesia geral. Depois foi a entrevista com o psiquiatra, que quis ter a certeza de que desejávamos fazer o aborto. Perguntou à Pilar qual era o motivo e ela disse que não se sentia preparada para ser mãe. A entrevista foi só isso: cinco minutos apenas. Depois de uma análise de sangue e uma história clínica, veio a parte mais dura. O ginecologista fez-lhe uma ecografia e disse-nos:
– Está aqui. É uma gestação de seis semanas.

A Pilar não conseguiu olhar para a ecografia, eu também não quis ver. Mesmo antes de entrar na sala de operações, dei-lhe um beijo e ela garantiu-me que tudo havia de correr bem. Aquela meia hora foi terrível: tive medo de que lhe acontecesse alguma coisa, porque amava-a realmente. Senti-me pessimamente e culpei-me por ela estar a passar por uma coisa assim. Nunca pensei no bebé.

Quando tornei a vê-la, cobri-a de beijos. Estive uma hora e meia a conversar com ela, até que o soro acabou. Receitaram-lhe antibióticos durante oito dias e marcaram-lhe uma consulta para fazer uma revisão 10 dias depois. Quando saímos da clínica, fomos ao cinema; queríamos desanuviar. Já estávamos calmos: o problema tinha-se resolvido apenas seis dias depois de termos sabido que ela estava grávida. Quando fomos à consulta, o médico disse-nos que estava tudo bem. Nenhum de nós chorou e a nossa relação continuou. Tínhamos decidido não dar importância ao sucedido porque, além do mais, tínhamos a certeza de que o mesmo não nos tornaria a acontecer. Eu não iria permiti-lo.

Mas o verdadeiro problema começou quatro semanas depois.

Quando já pensávamos que nos tínhamos livrado da complicação, começámos a sentir-nos culpados pelo que fizéramos. Descobrimos que podíamos ter feito outra coisa, que tínhamos sido uns autênticos cobardes. Deixámos de ser as pessoas alegres que sempre tínhamos sido… Tudo no recordava o que tínhamos feito. De repente, víamos grávidas por todo o lado, tudo nos fazia lembrar filhos: nos pensamentos, nos anúncios… Eu sentia-me perseguido pela palavra assassino.
Sei que a minha mãe me teria ajudado a seguir em frente, mesmo tendo-lhe dado o maior desgosto da sua vida. Mas pensei que isso a afectaria muito, que os nossos pais iam sentir muita vergonha por causa da sua imagem a nível social. Também pensava que o meu pai me obrigaria a deixar de estudar. Não receava pelo dinheiro, sabia muito bem que poderíamos resolver esse aspecto de alguma forma. O que realmente me assustava era que a minha relação com a Pilar corresse mal e a criança estivesse pelo meio.

Do que tenho a certeza absoluta é de que, se tivesse sucedido o mesmo a um filho meu, eu tê-lo-ia ajudado a seguir em frente.

Agora há muitas noites em que dormimos mal, há dias em que nem consigo comer. Levantar-me de manhã é o pior momento do dia: tenho de voltar a lutar. Em casa acham-me triste, mas mais nada. Há coisas que não contei à Pilar porque não quero fazê-la sofrer. Sinto que sou má pessoa, apesar de saber que tenho bom coração. Acho que já não mereço divertir-me, não quero ir tomar uns copos com os amigos, nem jogar futebol. Tudo quanto vivo deve-se à vida dum ser humano, mas sou incapaz de aceitar que a minha comodidade e a minha liberdade tenham esse preço. Sinto-me culpado, cobarde, estou zangado comigo mesmo.

A minha decisão foi especialmente motivada pelas frases da minha mãe, que giravam na minha cabeça: não queria dar um desgosto aos meus pais e também não sabia se nos apoiariam. Toda a gente nos deu a entender que era fácil. Abortar é muito simples. E não nos falaram das consequências psicológicas do aborto. A proposta do aborto é um erro.

A Pilar e eu não voltámos a ter relações sexuais; pusemo-nos de acordo em relação a isso. Eu não lhes sinto a falta. E reconheço que há uma vantagem prática: não preciso de estar todos os meses dependente de saber se a minha companheira está grávida. Temos os nossos melhores momentos quando estamos juntos: aprendemos assim a ser amigos, conhecemo-nos mutuamente. O que eu desejo agora é vê-la sorrir. Não temos pressa, queremos cuidar de nós, fazer as coisas mais calmamente. Quando voltarmos a tê-las, irei valorizá-las de outra maneira, será uma coisa muito especial quando voltar a acontecer. Mas queremos que seja para termos um filho. Queremos extrair alguma coisa boa do aborto do nosso filho, que é aquilo que realmente fizemos mal. Se nos voltasse a acontecer, di-lo-íamos aos nossos pais. Mas agora é melhor não dizer: iríamos fazer-lhes muito mal, e também não nos poderiam ajudar.

O tempo passou e eu precisava de falar “mais de perto” com Deus. Três meses depois do aborto, estive com um sacerdote. A sua compreensão libertou-me da angústia em que eu estava mergulhado. Chorei enquanto lhe contava tudo o que tinha acontecido. Recordo que me disse que me compreendia, que entendia porque chegara àquela absurda decisão. Mas o que mais me ajudou, de tudo quanto me disse, foi:
– Se eu te vejo e te compreendo, como não te há-de compreender Deus?! E se Deus vê o teu arrependimento e perdoa, porque não te hás-de perdoar a ti mesmo?

Sei que Deus me perdoou, Ele concede-me o dom de estar assim. Uma das coisas de que mais gosto no cristianismo é precisamente esta: há presente e há futuro, mas não passado. Quero ver este erro como uma prenda e jamais hei-de invejar quem tenha abortado e não se sinta culpado. Não quero deitar a perder a minha vida por cinco dias, por esse grande erro, e por isso tive de começar a desmistificar o que tinha feito para me poder” perdoar. Agora entusiasma-me muito ter uma família: quero ter filhos, e a Pilar também. Antevejo um bom futuro para nós dois.

Se eu conhecesse alguém que estivesse na mesma situação, animá-lo-ia a prosseguir com a gravidez: disso jamais se arrependerá. De abortar, já é muito provável que sim. Devíamos ser mais responsáveis e coerentes com os nossos actos até ao fim. É isso que traz felicidade. Além disso, acima de tudo, estará sempre o direito à vida que é preciso respeitar; isso é que é justo.

Espero poder ajudar com este testemunho porque, na realidade, eu também sou uma parte da ajuda de Deus aos outros. Faço-o por Ele, por mim, pelo meu compromisso com a sociedade e pelo direito à vida. Agora estou mais calmo, embora triste. Mas não ponho de parte a possibilidade de ir a um psicólogo. Pelo menos aprendi a apreciar as coisas mais pequenas em que antes não reparava. Às vezes o meu objectivo era apanhar uma bebedeira às sextas-feiras, e agora comecei a fazer o que realmente me apetece. Há uns tempos, uma ida ao cinema teria sido uma tolice, mas agora os melhores planos são os mais calmos. Os meus amigos não me compreendem, não sabem porquê ou como me transformei desta maneira.

Hoje, a Pilar e eu continuamos a nossa relação. Tentamos que a nossa vida seja o mais normal possível, vamo-nos perdoando a nós próprios pouco a pouco. Suportar tudo isto não estando juntos seria muito mais difícil.

Embora o aborto tenha sido uma decisão dela, se eu a tivesse convencido, tê-lo-íamos evitado. Agora estou muito arrependido. Por isso peço que as pessoas que abortaram não sejam julgadas, que nos sintamos queridos e protegidos pela sociedade. Porque as pessoas que cometeram erros também são humanas e sentem-se mal. Oxalá com este testemunho o medo não ganhe a outros a batalha que me ganhou a mim.

(In “Eu abortei – Testemunhos de abortos provocados”, de Sara Martín Garcia, Editora Principia)
Nota da autora: A minha participação neste livro consistiu em compilar e ordenar estes testemunhos, dando-lhes a forma de histórias e uma unidade. Todos eles são reais, embora, na maioria dos casos, os nomes utilizados sejam fictícios, para proteger a privacidade dos autores.