Por favor, não tentem enganar-nos. A defesa da liberalização do aborto não tem nada a ver com a defesa dos direitos das mulheres. A defesa dos direitos de uma mulher grávida em dificuldades não tem a ver com a tentativa de a convencerem de que a destruição do seu filho pode ser solução. A defesa dos direitos de uma mulher grávida tem a ver, isso sim, com a apresentação de alternativas que lhe permitam viver bem consigo própria. Essas alternativas – o apoio a futuras mães em dific
uldades – já existem e só esperam que para lá continue a dirigir-se quem precisar.

Por favor, não tentem enganar-nos. A defesa da liberalização do aborto não tem mesmo nada a ver com a defesa dos direitos das mulheres. Como viver o resto dos dias a relembrar aquela data? E será que está devidamente difundida a informação sobre os efeitos que o aborto provoca numa mulher? Sobre os estudos e os testemunhos que mostram como o aborto inibe o instinto maternal em relação a outros filhos, já existentes ou nascidos posteriormente? E de como, depois de abortar, a relação da mãe com os outros filhos se pode complicar a ponto de estar associada a casos de maus tratos a menores? Não é de espantar. Quando uma mulher é levada a acreditar que pode trair o seu amor de mãe, algo de irreparável afectará o seu mundo afectivo e emocional. Tentará repetir a si própria, por toda a vida, a mentira que alguém lhe disse um dia: que foi a melhor solução, que eram apenas umas células sem identidade…. mas no íntimo sente que não é assim.

Por favor, não tentem enganar-nos. Não queiram que vivamos a esconder uma verdade. E não diga, quem defende a liberalização do aborto, que é uma questão de tolerância. Porque nós, mulheres, não queremos ser “toleradas” como se fôssemos seres inferiores. Queremos ser respeitadas pela atitude verdadeira com que encaramos a nossa vida e os nossos filhos. Queremos ser apoiadas nas dificuldades que encontramos. Não queremos ser friamente (“tolerantemente”!) encaminhadas para clínicas autorizadas que nos tiram um filho e pensam que nos podem implantar um coração de pedra.

Quem quer defender os direitos das mulheres não pode certamente defender o aborto. Quem quer defender os direitos das mulheres terá de reconhecer que o caminho está no apoio à futura mãe, para que esse estatuto – o de Mãe – mesmo surgido em conturbação, possa ser conquistado e assumido com orgulho e ternura.

Os direitos das mulheres defendem-se recusando a liberalização do aborto e promovendo a ajuda às futuras mães em dificuldades.

Isabel Vaz Antunes

(in “O Carrilhão”, 15 de Fevereiro de 2004)