Outro slogan muito popular: «A legalização do aborto não obriga ninguém a abortar. Quem entende que as suas convicções não lhe permitem abortar, não aborte».

Este slogan deixa por esclarecer uma série de pontos:

1. Com igual legitimidade se poderia dizer: «A legalização da escravatura não obriga ninguém a escravizar. Quem entende que as suas convicções não lhe permitem ter escravos, que os não tenha».

2. «A legalização da violação não obriga ninguém a violar. Quem entende que as suas convicções não lhe permitem violar, que o não faça».

3. «A legalização do infanticídio não obriga ninguém a matar os seus filhos. Quem entende que as suas convicções não lho permitem, que o não faça».

4. «A legalização do trabalho infantil não obriga ninguém a empregar crianças (ou a mandar os seus filhos trabalhar). Quem entende que as suas convicções não lho permitem, que o não faça».

5. Obrigar uma pessoa a abortar é, evidentemente, um crime abominável. Simplesmente não é esse o crime que está aqui em discussão: ninguém está a discutir o aborto obrigatório, para que os defensores do aborto se defendam dizendo que não estão a obrigar ninguém a abortar. O que se pretende saber é se o aborto voluntário é aceitável ou não. O que se pretende saber é se o bebé não nascido tem direito à vida ou não. Para que o não tenha é preciso distingui-lo dos outros seres que têm direito à vida. Onde está a distinção? Certamente que não é este slogan a fazê-la.

6. Todos os países que hoje têm aborto compulsivo começaram por legalizar o aborto voluntário. Logo, nem sequer é certo que a legalização do aborto não acabe em aborto compulsivo (para idiotas, loucos, portadores de doenças genéticas, etc.).

7. Ainda que tudo isto fosse falso e o slogan fosse certo, ficava justificado o aborto até aos nove meses, posto que o slogan não tem nenhuma excepção que o invalide a partir de certo ponto da gravidez.

(João Araújo, “Aborto, sim ou não?”)