Outro slogan vulgar é este:

«Nenhuma mulher aborta por prazer (desporto, gosto, etc.). Se ela decide abortar é porque não vê alternativa e quem somos nós para julgar a sua situação particular?»

Sobre isto diga-se o seguinte:

1. «Nenhuma mulher mata o seu filho recém-nascido por prazer (desporto, gosto, etc.). Se uma mulher se torna infanticida é porque não vê alternativa e quem somos nós para julgar a sua situação particular?» Se este discurso falha para o infanticídio e funciona no aborto, é porque os seres que se matam são distintos. Quem conseguir exibir essa diferença, converterá todos os defensores do direito à vida. Mas terá também de converter os defensores do aborto, posto que entre estes não há acordo sobre as razões que tornam o aborto aceitável e o infanticídio inaceitável.

2. O facto de um assassino matar por prazer, torna o crime ainda mais abjecto. Daqui não decorre que o assassinar com pena, ou com sofrimento, ou com repugnância, é aceitável. Um crime tem agravantes e atenuantes mas nem por isso deixa de ser crime. As razões que levam uma mulher a abortar podem atenuar em muito – acaso completamente – a sua culpa; contudo, isso não altera o facto do aborto matar um ser humano inocente e indefeso. Mais: só se mata esse ser humano porque ele está indefeso. É que se os bebés viessem equipados com tesouras e aspiradores, prontos para trucidar o abortador, este nem se aproximaria! Logo, a legalização do aborto não é uma questão de razão mas de força: o mais forte impõe a sua vontade ao mais fraco.

3. Não é verdade que a decisão de abortar seja sempre (ou na maioria dos casos) uma agonia lenta e dolorosa. Muitas mulheres vêem-se de repente numa situação tremenda e o aborto é visto como “the easy way out”. Tal como a pessoa que atropela, e num impulso, levada pelo pânico, carrega no acelerador e foge. Na altura sente alívio: só depois vem o pior. Além do mais, na maioria dos casos a pessoa só caiu na situação tremenda, que a leva ao aborto, porque a sua repugnância pelo aborto estava muito erodida. Uma pessoa absolutamente certa de que nunca abortaria não arrisca colocar-se numa situação em que terá de considerar seriamente o aborto. Marilyn Buckham, directora de uma clínica de abortos, disse o seguinte:

«Dizem que “As mulheres não abortam por prazer”. Eu estou farta e doente de ouvir isto. A verdade é que 98% das mulheres vem aqui [à clínica] abortar de ânimo leve. E fazem-no de ânimo leve. Para elas o aborto é como lavar os dentes e isso a mim pouco me importa.» (Marilyn Buckham, director, Buffalo GYN Womenservices Clinic, citada em the Revolutionary Worker, March 6, 1989).

William Robinson, um abortador inglês, disse:

«Detesto um certo tipo de mulheres novas e modernas que usam os contraceptivos de forma relutante, preferindo fazer abortos em série, como se abortar fosse semelhante a beber uma taça de champanhe ou um copo de whisky.» (William Robinson, quoted in the Critic and Guide , 1921, page 24).

Sallie Tisdale, enfermeira numa clínica de abortos, disse o seguinte:

«O aborto é uma operação de tal forma rotineira que as mulheres pensam-no como uma ida à manicure: rápido, barato e sem dor.» (Sallie Tisdale, abortion clinic nurse, October 1987 Harpers Magazine article entitled “We Do Abortions Here.”)

4. Além do mais já se fizeram abortos, literalmente, por desporto. Descobriu-se que as capacidades físicas de uma grávida aumentam de forma apreciável durante a gravidez. Por isso, muitos países, tanto do Leste como do Oeste, permitiam que as suas atletas engravidassem com o único propósito de abortar pouco antes das provas. Nos centros de controle de doping do Comité Olímpico Internacional começou a estranhar-se a quantidade de atletas que tinham estado grávidas pouco tempo antes das provas; depois da queda do muro de Berlim tudo ficou esclarecido com as revelações de atletas da RDA.

5. A questão fundamental não é saber se abortar é um crime muito penoso: a questão está em saber se abortar é crime. E, depois, há também que saber se a mulher que pensa abortar está prevenida da dor, agonia, e sentimento de culpa que o aborto lhe vai provocar.

6. Ainda que tudo isto estivesse errado, o slogan acima permite defender qualquer aborto (e a muitos outros crimes), pelo que não se compreende que a lei só permita o aborto até às dez semanas. Afinal, abortar um bebé de cinco ou sete ou nove meses, não é uma decisão difícil e penosa?

(João Araújo, “Aborto, sim ou não?”)