A legalização do aborto é um fenómeno histórico tão horroroso como intrigante. Como é possível que uma sociedade negue a evidência da existência de uma pessoa no feto humano, legitime, proteja, e inclusive chegue a estimular as mães a matarem os filhos que levam no seio, contra toda a razão e justiça, contra a inclinação natural e espontânea da mulher e contra as próprias solenes declarações da inviolabilidade da vida? Fazem bem os que tentam despertar as consciências para tão aberrante legislação, mas a verdade é que, como em qualquer outro problema, não erradicaremos esta desgraça sem lhe descobrirmos as causas.

Já nesta coluna e noutros locais aventei uma explicação que continua parecendo-me verosímil – a do pânico. Assim como uma rapariga pode entrar em pânico ao ver-se grávida, talvez se dê um pânico geral, de toda uma geração, perante as múltiplas ameaças que a assediam, desde a guerra nuclear ao “efeito de estufa”, da poluição à explosão demográfica, do terrorismo à SIDA, etc., provocado por uma comunicação social especializada em cataclismos, crimes, fúrias multitudinárias, escândalos e suspeitas. Só esse pânico justificaria uma cegueira tal que nos tornasse insensíveis ao massacre de milhões de inocentes.

Mantenho substancialmente esta opinião, que de certo modo atenuará as nossas culpas aos olhos das futuras gerações, e que explica a aparente inutilidade da mais elementar argumentação em favor da vida, pois quem entra em pânico não quer ouvir alertas nem razões, mas só escapar à vaga e aterradora “catástrofe” que julga iminente. Vejo, porém, uma outra explicação complementar e mais imediata: a desvalorização da vida humana. Neste ponto falta-me certamente originalidade, excepto possivelmente no sentido que pretendo focar – o de que aqueles que menosprezam a vida alheia começaram por desprezar a sua. Talvez não se tenha ainda reparado bem no que significa de auto-desprezo o crime de homicídio.

Quero dizer que tanta ou mais compaixão merece quem mata do que quem é morto. Embora, à primeira vista, só se possa classificar de egoísmo feroz a eliminação “in ovo” da mínima probabilidade de um nascimento incómodo, vendo melhor, quem mata já está morto. Não vê nos outros indivíduos seres respeitáveis, porque já não se respeita a si mesmo, porque se considera a si mesmo um ser desprezível.

Não imaginamos bem as consequências psicológicas de uma visão materialista do homem. Sem referência a Deus nem ao espírito, o ser humano é realmente insignificante, ou, quando muito, um animal tão admirável como a pescada, o estorninho ou a barata. A sua única “mais-valia” consistirá numa maior complexificação evolutiva, sofisticação orgânica que, no entanto, faria dele um ser de frágil e confuso comportamento e o mais perigoso dos predadores. E toda a nossa “filosofia de vida” se baseia nisto. Assim se educam as crianças, esse é o credo oficial da nossa cultura, tal é o pressuposto de qualquer divulgação científica. As maiores loas de exaltação evolucionista do homem não conseguem ocultar o que por baixo delas se confessa: “eu sou um bicho, tu és um bicho, ele é um bicho, nós somos bichos…”

Ora os bichos matam-se uns aos outros. Por defesa e necessidade, é claro. Eis o grande e exclusivo princípio ético admissível… e que o homem ainda não assimilou. Só isso lhe falta para a sua evolução completa. Eis, portanto, o grande programa “educativo”…

Não imaginamos a falta que nos faz o cristianismo. Embora o direito à vida de todas as pessoas seja um princípio acessível à razão, na realidade só o cristianismo o iluminou definitivamente e com toda a clareza, e lhe foi extraindo as consequências. Quando o homem se precata de ser amado por Deus, até ao ponto de se irmanar com o seu Filho, logo intui a grandeza da sua condição e a do semelhante, sem se escandalizar com a sua evidente mesquinhez física nem com a sua fragilidade moral. Pelo contrário, quem se esquece ou recusa a crer na filiação divina, e se julga tão-só um parasita do cosmos, não consegue ver no semelhante senão o que de si mesmo pensa. O horror do aborto organizado é precedido pelo horror de uma visão medonha da vida. E, como dizia antes, quem a padece suscita em mim maior compaixão do que as inocentes vítimas, que Deus acolherá na sua infinita misericórdia.

Apoio as campanhas em curso contra a legislação abortista. Espero que surtam algum efeito positivo. Mas este problema não se resolve com elas. Suponho que só se resolverá parcialmente quando o nosso mundo encontrar alguma luz ao fundo dos seus escuros medos e recobrar alguma esperança de paz, e desaparecerá como fumo na medida em que a fé cristã volte a iluminar as nossas mentes.

(Hugo de Azevedo, in Jornal de Notícias, 11-02-97