mãos manchadas de sangue

 

Há vidas complexas que ensinam a muita gente que há caminhos que não vale a pena percorrer. Assim é a vida de Fernando, que, aos 46 anos, deseja dar a conhecer as experiências que teve de aborto provocado e a forma com elas marcaram a sua juventude. Fernando foi cúmplice na morte de vários filhos seus. Agora, com uma nova visão da vida, quer que o mundo inteiro saiba que o aborto é sofrimento e cobra sempre uma factura. E que não basta uma vida para o reparar.

A minha vida sofreu uma mudança total em resultado das experiências que tive de aborto.

A primeira teve lugar em meados dos anos 80. Nem sei se, nessa altura, o aborto já estava despenalizado nas três situações em que está hoje. O filho não era meu, mas sentia-o como se fosse, porque a mãe era uma grande amiga minha. Eu tinha 25 anos e ela 20. Pediu-me ajuda porque tinha engravidado. Estava a terminar os estudos e não queria tê-lo. Não sei se o companheiro sabia. Era Verão e estávamos vários amigos na vila. De repente, um deles comentou que conhecia uma médica que praticava abortos em casa por cerca de 30 000 pesetas. O dinheiro não foi problema, parece que veio sem o pedirmos. Depois de termos pensado, decidimos telefonar-lhe. Organizámos tudo na casa duma amiga da rapariga e a médica garantiu-nos que não aconteceria nada. Caso ela tivesse uma hemorragia, bastaria levá-la ao hospital sem dar explicações. Só depois nos demos conta de que o hospital mais próximo ficava a 80 km. Foi uma autêntica loucura.

Organizámos tudo entre um quarto e a cozinha. A médica tirou os instrumentos, que fervemos em panelas, e depois começou a operação, que durou quatro horas. Foi horrível: a raspagem complicou-se, a rapariga perdeu muito sangue e sofreu imenso. Foi milagre não lhe ter acontecido nada, porque os instrumentos misturavam-se com as coisas da cozinha e as condições higiénicas deixavam muito a desejar. De facto, sempre pensei que aquela rapariga nunca iria poder ter filhos. Felizmente, enganei-me: hoje está casada e já é mãe.

Eu estava na sala num estado de extremo nervosismo. A médica foi-se embora no dia seguinte, e ali ficámos nós, uma amiga dela e eu, para mudar os pensos, pois ela perdera imenso sangue.

Ainda hoje o recordo como uma carnificina. E, como sempre acontece, quase ninguém soube. Silêncio total. Jurei a mim mesmo que jamais voltaria a aceitar uma coisa assim. Quem diria que a vida ainda haveria de me trazer mais encontros com o drama do aborto…

Algum tempo depois, fui viver com aquela que seria a minha companheira durante quatro anos, a Teresa. No início da nossa relação, ela pôs o DIU, e não sabemos quantos abortos provocados vivemos por meio dele sem nos apercebermos. Mas a relação piorou com o tempo e eu procurava uma maneira de cortar relações com ela, que por essa altura já vivia noutra cidade. Quando me mudei para Córdova, conheci outra rapariga, chamada Elisa, com quem tive um “deslize”. Emocionalmente, era uma maneira de começar a acabar com a Teresa. Pouco tempo depois, a Elisa comunicou-me que estava grávida. Eu já calculava, porque nunca usava preservativo, confiava no coito interrompido, ou talvez na sorte. A minha primeira reacção foi insistir em que ela levasse a gravidez até ao fim e desse importância à vida, mas também lhe expliquei que não me podia comprometer a acompanhar a gravidez com ela, pois, teoricamente, ainda tinha uma companheira, a Teresa. Ainda assim, reconheço que não tinha muitas esperanças de que a Elisa fosse por diante com a gravidez. De qualquer modo, ela não me estava a pedir nenhum conselho – queria simplesmente que eu soubesse.

Pouco tempo depois, avisou-me de que tinha consulta marcada numa clínica para abortar. Estava convencida de que a criança seria um estorvo para a nossa relação e que, a tê-la, seria uma obrigação para ambos e assim nada sairia bem. Hoje tenho a certeza de que, se eu tivesse sido firme na minha posição, ela teria tido a criança.

Quis acompanhá-la à clínica, pois sentia que aquele também era um “problema ” meu. Fomos com uma amiga dela. Eu estava muito nervoso. A própria Elisa tentou acalmar-me, mas não conseguiu. Quis ir com ela à consulta do médico ou do psicólogo, mas não me deixaram. O ambiente era muito sério e tenso; lembro-me de ter estado todo o tempo a rezar o “Pai Nosso “. Nessa altura, embora abortar não fosse uma alegria, o ambiente em que nos movíamos aceitava-o, de acordo com a teórica “liberdade sexual ” que todos tínhamos; fosse como fosse, não o contámos praticamente a ninguém. Parecia que abortar era muito moderno; mesmo assim, acho que tínhamos vergonha. Foi tudo muito rápido: chegámos às 11.00 horas da manhã e antes do almoço saímos pela porta como se nada se tivesse passado.

Pouco tempo depois, partimos os três (a Elisa, a amiga e eu) em viagem, pensando em distrair-nos. A Elisa e eu voltámos a ter relações, apesar do risco evidente de hemorragia. E assim nos enganámos ambos com a ideia de que, eliminando o bebé, poderíamos viver o nosso amor sem impedimentos; pensávamos que ele poderia ser uma obrigação para estarmos juntos, um estorvo. Depressa porém nos apercebemos do engano, porque, depois do aborto, eu continuei a minha relação com a Teresa, e a Elisa ficou sozinha. Tornámos a ver-nos uma vez ou outra, mas, a partir de então, ficámos separados por aquele acto contra natura, aquele muro vergonhoso que só se ultrapassa aceitando o mal que se fez. Vários anos mais tarde, reconheci perante a Elisa que estava verdadeiramente arrependido daquele aborto. Ela ouviu-me, mas não me disse nada parecido. Julgo que continua a pensar que o aborto é uma opção como tantas outras.

“Foi como ficar com as mãos manchadas de sangue”

A minha terceira experiência com o aborto deu-se aproximadamente dois anos depois. Terminara a minha relação com a Teresa e já tinha tido um outro namoro tempestuoso, que durou uns meses. Precisava de estar sozinho, mas engravidei uma amiga minha, a Carolina, depois de termos relações sem usar preservativo. Ela tinha-me garantido que não iria acontecer nada porque ainda estava com a menstruação. Quando me telefonou para dar a notícia, nem podia acreditar! A Carolina já tinha dois filhos. Quis convencer-me de que a criança não era minha, mas eu sabia que não era verdade, pressenti-o desde o primeiro momento. Ainda assim, refugiei-me na dúvida da paternidade para não a confrontar com a questão de avançar com a gravidez e acompanhei-a à clínica para abortar. Foi tudo igualmente rápido.

Não falei com ninguém e ninguém me perguntou nada. Estive simplesmente com ela no quarto onde tinha de descansar após a intervenção. Depois, limitei-me a conduzir o carro e a levá-la a casa. Quando penso como fui cruel, no fundo, sinto pena de mim próprio. Cheguei numa sexta-feira, no sábado acompanhei-a à clínica e no domingo voltei para minha casa. Deixei-a lá deitada sozinha, com os filhos… Recordo bem esse domingo em que voltei para casa: foi como ficar com as mãos manchadas de sangue e não ter absolutamente ninguém com quem falar sobre isso, porque ninguém me poderia consolar. Foi um vazio horrível, não tem comparação nenhuma com outros momentos de solidão e desespero que tive na vida. Uma sensação de solidão sem solução, uma vivência de morte em vida.

Não falei com ninguém: entendia-se que o aborto era uma coisa muito pessoal da mulher e que eu não tinha direito a comentar nada, nem as minhas angústias ou dúvidas. Além disso, tinha de me mostrar forte, já que, teoricamente, era esse o meu papel, o papel dum homem. De cada vez que penso nisso, tenho vontade de gritar a mim próprio como fui cobarde por não dizer aquilo que sentia realmente. Tudo para procurar viver um progressismo falso e cheio de egoísmo. Vários anos depois, a Carolina confessou-me que tinha laqueado as trompas com receio de voltar a viver uma experiência de aborto. E reconheceu que teria tido a criança se eu lho tivesse pedido. O pior de tudo era que eu sabia-o perfeitamente.
Ela não voltou a conseguir estabilidade emocional com nenhum homem. Talvez esse homem fosse eu, e eu não quis. Sempre pensei que me foram feitas algumas dádivas, entre a quais boas oportunidades com mulheres bondosas. Mas eu desperdicei-as toda, consciente ou inconscientemente. Se ela tivesse tido o bebé, tenho a certeza de que teríamos continuado junto como casal.

A minha quarta experiência com o aborto chegou inesperadamente, num momento em que julgava ter alcançado alguma estabilidade emocional junto da Rebeca, uma mulher que sabia o que queria, era equilibrada e estava entusiasmada por começar uma nova vida após um fracasso matrimonial e uma depressão. Queríamos formar um casal estável, tínhamos inclusivamente pensado em casar. […] Tudo começou quando, numa visita ao ginecologista, lhe detectaram um problema por causa do qual teve de deixar de tomá-los durante uns tempos: foi o suficiente para ficar grávida. Ao princípio, nem acreditámos. Eu sentia-me mais seguro do que em qualquer outra relação e a ideia não me aterrorizava. Mas, para surpresa minha, preocupava imenso a Rebeca. Transtornou-a totalmente, porque isso não estava nos seus planos. Nunca fui capaz de compreender o porquê desse terror face à maternidade. Sempre o justifiquei pensando que ela era a mais velha duma família em que era preciso aparentar uma vida normal. Marcou-me muito o dia em que a Rebeca me assegurou que a decisão do aborto já estava tomada e que eu não teria de me preocupar com nada. Eu, como sempre, calei-me. Maldito silêncio! Tudo por adoptar uma posição progressista, tudo por não contradizer os seus “direitos”. No fundo, era uma reacção de homem, fazer-me forte na adversidade porque, em teoria, era isso que a Rebeca esperava de mim. Fiquei triste, andava cabisbaixo, pensando que o aborto não traria nada de bom… Mas não fizemos nada.

Quando fomos ao ginecologista encarregado do aborto, ele explicou-nos que devíamos esperar mais um mês, até o feto ser suficientemente grande para se ver na ecografia e poder praticar com eficácia a sucção, que seria o método escolhido para interromper a gravidez. Pensei que o atraso podia abrir a esperança de que, no fim, a Rebeca não abortasse. Mas, ao cabo de um mês, voltámos à clínica, onde se tornou a praticar outro assassínio, a mesma tragédia. E às 11.00 horas da manhã já estávamos a tomar o pequeno-almoço num café próximo, como se nada tivesse acontecido. Foi então que, de repente, meditando sobre aquele novo acontecimento tão trágico, compreendi a mensagem: eu não podia continuar a brincar como uma criança sem responsabilidade pelos seus actos.

Apesar de a Rebeca ter ido nesse fim-de-semana para minha casa para descansar, fui à Romaria de Nossa Senhora de Ubidot. Sabia muito bem que não estava certo fazer aquilo naquele momento, mas fui-me embora. Não sei como me atrevi a apresentar-me naquele lugar sagrado depois de ter desprezado a nova vida que nos fora oferecida… Quando regressei a casa, a Rebeca tinha ido para casa dela. Não fui a correr procurá-la, como se pretendesse convencer-me a mim mesmo de que o que tínhamos feito não era assim tão grave. Mas houve algo essencial que se desfez para sempre. Algum tempo depois, comecei a ir a um psicólogo, porque as coisas entre nós não andavam bem. Ele aconselhou-me a distanciar-me um pouco dela para ver com mais clareza o que queria fazer com a minha vida. Mas ela entendeu isso como uma tentativa para pôr fim à nossa relação e, pouco depois, foi o que aconteceu definitivamente.

Se fui capaz de dar este meu testemunho foi para evitar que possa acontecer o mesmo a outras pessoas, por desconhecimento ou por se deixarem levar. Faço-o também para pedir publicamente perdão às mulheres perante as quais não tive a coragem de me comportar como amigo e como pessoa corajosa em circunstâncias difíceis. Eu não defendi a verdade, que é o único caminho de libertação para o ser humano. Temos de começar a chamar as coisas pelos nomes: o aborto é um assassínio, diante do qual não queremos assumir o papel que, por natureza, nos coube, nem responsabilidade pelos nossos actos.

Aos amigos que me disseram que não fazia mal nenhum, gostava de dizer que não é verdade: faz mal, sim. Terei esses abortos na minha consciência para o resto da vida. Eles repercutiram-se negativamente nela para sempre. Sei que, enquanto homem, vivi essas situações um pouco “à margem”, já que as mulheres continuam a vê-la como uma coisa exclusivamente delas o que é um problema: o pai tem todo o direito a tentar que a mulher leve a sua gravidez por diante, porque o bebé é de ambos.

Reflectindo sobre o que me poderia ter ajudado para que isto não sucedesse na minha vida, encontrei várias coisas. Primeira: uma educação sexual saudável. Quando comecei a ter relações sexuais, fi-lo para me divertir, sem pensar nas consequências. Como a pílula já era muito utilizada, podia ter relações sexuais sem me preocupar. Demorei muito tempo a perceber que o sexo não se pode desligar da alma. Está unido ao espírito do homem e da mulher. Ainda que pretendam enganar-nos, o homem e a mulher sofrem quando vivem o sexo sem amor, pois essa é uma maneira de se violentarem.

A segunda coisa que me teria ajudado seria ter falado do tema da gravidez com mais liberdade com os pais, os amigos, os professores. Falando disso, talvez tivéssemos defendido o nosso bebé. Mas o silêncio atira-nos para um canto onde não há ninguém e do qual não podemos sair enquanto não nos desfizermos do nosso “problema”.

Terceira: devia haver mais associações de defesa da vida, mais encontros onde se fale abertamente da verdade – de que o aborto é um assassínio -, mais política social a favor da família, a favor dos filhos, que são a esperança e a riqueza da sociedade. É possível que, se tivéssemos visto tudo isto, não nos atrevêssemos. Não sei. Lembro-me de uma loja de artigos eléctricos, no centro da Cidade, em cujas montras vi uma vez cartazes contra o aborto. Despertaram muito a minha atenção. Só essas pessoas gritam com coragem o que outros não querem ouvir.

Depois de todas aquelas relações fracassadas, encontrei um sossego que não esperava, a tranquilidade de não ter obrigações perante ninguém. Foi como uma reconquista da solidão que não tinha há anos, porque arranjei sempre maneira de não estar sozinho. O meu primeiro passo com o psicólogo foi aperceber-me de que não podia deixar que as necessidades sexuais condicionassem a minha vida, de que era melhor estar só, mesmo à custa de não as satisfazer. E comecei a sentir-me bem, a olhar de novo para dentro de mim. Descobri então que a minha vida tinha sido um desastre completo até àquele momento.

Não é verdade que, para abortar, seja preciso ter coragem. Isso não passa de um cliché. Há sempre outra saída: a da vida, aquela que os nossos pais escolheram para que nós, hoje, estivéssemos no mundo. Há esperança se houver vida. Por desgraça, vivemos mergulhados na ideia de que o nada é preferível à dor. Mas é precisamente a luta que faz com que experimentemos o amor a que todos somos chamados. Porque o amor é a única coisa que vale a pena nesta vida.

(In “Eu abortei – Testemunhos de abortos provocados”, de Sara Martín Garcia, Editora Principia)
Nota da autora: A minha participação neste livro consistiu em compilar e ordenar estes testemunhos, dando-lhes a forma de histórias e uma unidade. Todos eles são reais, embora, na maioria dos casos, os nomes utilizados sejam fictícios, para proteger a privacidade dos autores.