arrancar uma parte do nosso corpo

 

Tem 30 anos e foi há dois que abortou numa cidade da Andaluzia. Sofreu maus tratos no âmbito da relação e foi coagida a abortar – uma situação muito frequente, que é silenciada e pouco denunciada. A relação não acabou bem após o aborto, como é habitual nestes casos. No entanto, há alegria no presente, porque Lúcia é mãe duma linda menina.

Nesse dia, tinha comprado um predictor na farmácia. Tivéramos relações sexuais e, inadvertidamente, fiquei grávida. Quando ele soube, começou a fazer chantagem comigo. Teve muita dificuldade em convencer-me a abortar. No princípio, como tinha sido apanhado de surpresa, foi mais subtil. Dizia-me:
– Lúcia, ainda somos novos, vamos ter muito tempo para sermos pais.

Depois começou a comportar-se como nunca se comportara antes: beijava-me, abraçava-me, acariciava-me… Era o carinho que eu sempre tinha querido e que ele nunca me tinha demonstrado.

Queixava-se muitas vezes de que não tinha dinheiro e não teríamos meios para sustentar o nosso filho. Mas depois, vendo que eu estava contente com a gravidez, começou a ameaçar-me:
– Se tiveres a criança, deixo-te.

E eu, com 28 anos, não tinha dinheiro, dependia dele. Além disso, amava-o loucamente. E não tinha ninguém em quem confiar. Não me relacionava com a minha família, nem tinha amigas. Só o tinha a ele, e se ele me deixasse…

Por isso, decidi-me a abortar. Ele já tinha o dinheiro preparado para o aborto: 240 euros. Nesse dia, bebi até ficar bêbeda. Não queria fazê-lo, estava muito pressionada. Mas não encontrei nenhuma ajuda. Ninguém me ofereceu alternativa ao aborto, nem me contou o que eu iria sofrer depois por causa disso. Fui completamente bêbeda fazer o aborto… porque não queria. Realmente, estava debaixo de uma grande pressão… Nesse dia, fizeram-me tudo: ecografia, consulta de Psiquiatria… Depois, estive com o ginecologista, que me fez o aborto. Não sei, era como se o médico estivesse assustado, fazia-me muitas perguntas, como por que razão íamos àquela clínica. Parecia ter medo por estar a praticar o aborto. Creio que era argentino.

Fizeram-me o aborto pelo método da aspiração. Com o aspirador, é como se nos arrancassem um pedaço… Sentimos que nos estão a arrancar uma parte do nosso corpo. É horrível!
Em consequência do aborto, comecei a beber. Fiquei muito em baixo e caí numa depressão. Ainda hoje vivo o aniversário do aborto como um drama. Quando vejo uma criança de dois ou três anos, vêm-me as lágrimas aos olhos: é a idade que o meu filho teria se estivesse vivo. Uma vez, tentei suicidar-me. Felizmente falhei. Soube depois que tinha direito, por lei, a conhecer todas as sequelas e repercussões do aborto. Mas ninguém mo disse. Porquê?

Pouco tempo depois, fiquei novamente grávida. Fi-lo pelos remorsos que tinha, pensei que assim poderia reparar tudo o que tinha feito. Estava disposta a levar por diante essa gravidez custasse o que custasse. A nossa relação já estava muito deteriorada e essa notícia fez com que acabássemos por abandoná-la.

Eu não queria ir às consultas de Ginecologia: era incapaz de permitir que um homem me examinasse depois do aborto. Por fim, lá consegui ser atendida por uma mulher. Durante toda a gravidez, sonhei que me tiravam a minha filha. Sonhei até que a Polícia a levava porque eu não era digna de a ter. Precisei de tomar calmantes. Depois do parto, comecei a tomar comprimidos para dormir. Mas fui bem-sucedida. Hoje compreendo como estava enganada. Antes era muito “feminista”, via isto só do ponto de vista da mulher. Mas isso é falso e parcial. Agora penso de uma maneira totalmente diferente: vejo também a criança.

Não quero esquecer o meu aborto: foi uma coisa má que eu fiz e assumo-o. Não quero tirar-lhe a importância que tem. Não pode ser como quando se mata alguém e, por se ficar quatro anos na prisão, já se acha depois que está tudo bem. É preciso reparar o mal feito e continuar a olhar em frente, mesmo sabendo que se fez mal. O aborto é uma coisa realmente má para a mulher. Posso garanti-lo.

Acho que fui responsável por esse erro, mas tive uma margem de escolha muito pequena: quando olho agora para isso, creio realmente que não tive a liberdade suficiente para poder escolher o melhor para mim. Não havia tempo a perder e, com tanta pressão do meu companheiro e falta de ajuda dos médicos dessas clínicas abortistas… Ao verem-me chegar à clínica completamente bêbeda, deviam ter reparado que eu não queria fazê-lo. Mas aqueles médicos mataram o meu filho e tornaram-me cúmplice duma coisa horrível… Coisa de que me arrependo e peço a toda a gente que não deixe que se continue a fazer. O aborto não resolve nada, é mais um problema e, ainda por cima, fizeram um negócio comigo e com o meu filho defunto. Sem factura, sem nada, sem recibo… Como se de um negócio escuro se tratasse… Foi assim que mataram o meu filho numa clínica da Andaluzia. E foram médicos que o fizeram. “Médico” é uma palavra que não lhes pode ser aplicada.

(In “Eu abortei – Testemunhos de abortos provocados”, de Sara Martín Garcia, Editora Principia)
Nota da autora: A minha participação neste livro consistiu em compilar e ordenar estes testemunhos, dando-lhes a forma de histórias e uma unidade. Todos eles são reais, embora, na maioria dos casos, os nomes utilizados sejam fictícios, para proteger a privacidade dos autores.