«O aborto é uma questão que só diz respeito às mulheres. Não deveria ser discutida nem decidida por homens».

1. Da mesma forma se pode dizer: «O roubo é uma questão que só diz respeito aos ladrões. Não deveria ser discutida nem decidida por pessoas honestas».

2. «A escravatura é uma questão que só diz respeito aos proprietários. Não deveria ser discutida por quem não tem escravos».

3. «O trabalho infantil (a pedofilia, a violação, a mentira, a loucura, etc) é uma questão que só diz respeito aos pais (ao pedófilo, ao violador, ao mentiroso, ao louco). Não deveria ser discutida por pessoas sem filhos (não pedófilos, eunucos, pessoas verdadeiras, psiquiatras, etc)».

4. É certo que só uma mulher pode abortar, mas não é certo que só uma mulher possa ser abortada. Logo, na medida em que meninos e meninas podem morrer dessa forma, a questão do aborto importa a todos os sexos. Além disso, todo o filho tem pai.

5. E para que uma pessoa possa falar sobre um crime, nem sequer é preciso que a pessoa possa de alguma forma ter parte ou ser vítima dele. Um juiz pode pronunciar-se sobre o caso de um pastor que roubou uma ovelha a outro. O juiz não tem ovelhas (pelo que não lhas podem roubar), não é parte na questão e contudo pode decidir com toda a autoridade.

6. O que interessa de uma opinião (posição ou afirmação) é saber se está certa ou errada. Se um homem se pronuncia sobre o aborto, a sua posição pode ser boa ou má por aquilo que diz e não pelo facto de ser homem. O mesmo se aplica às mulheres. Nenhuma fala acertadamente só pelo facto de ser mulher.

7. Além do mais o slogan é mau para si próprio. Se os homens, por não poderem ficar grávidos, não podem falar sobre aborto, as mulheres por não serem homens não podem falar sobre o que os homens não podem falar. Só um homem poderia dizer sobre o que é que os homens não podem falar.

8. Além do mais, se o slogan fosse verdadeiro, os homens não conseguiriam dizer nada acertado sobre o aborto pelo que mais fácil seria rebater o que eles dizem. Porque, então, se manda calar sem explicações um grupo de pessoas que não consegue dizer coisas acertadas?

9. Se os homens não podem falar sobre o aborto, todas as mulheres deveriam boicotar o referendo posto que este referenda uma lei proposta por um homem, o líder da JS, e o próprio referendo foi proposto por outro homem, o líder do PSD.

10. Além do mais, se os homens não podem falar pelo facto de não poderem engravidar, as mulheres que não podem engravidar também não poderão falar. Em rigor, só poderiam falar de aborto as mulheres que apresentassem um atestado de fertilidade. Há que levar o slogan até ao fim e sugerir isso mesmo.

11. Um crime arrasta outros crimes. O aborto é um crime e para o permitir não se tem pejo de limitar a liberdade de expressão a metade da sociedade. Convém recordar que também se discutiu muito se a Igreja Católica poderia participar na campanha do referendo e, já agora, em 1996 o presidente Bill Clinton, que é pró-aborto, tentou aprovar uma lei que proibia, com pena de cadeia, qualquer discussão em público sobre o aborto. Segundo essa lei, seria inclusive proibido, e punido com cadeia, tratar o aborto nos grupos de discussão da Internet.

12. A única forma de ganhar uma discussão quando não se têm argumentos, é eliminar os opositores.

13. Finalmente, alguns dos maiores grupos de defesa do direito à vida são, ou foram até há pouco tempo, dirigidos por mulheres. Por exemplo: Americans victims of abortion, Women exploited by abortion, American Life League, National Right to Life Commitee, Catholics United for Life, Americans against abortion.

(João Araújo, “Aborto, sim ou não?”)