aborto na RússiaFonte

O legado

A prática comum do aborto induzido durante décadas deixou, neste país, um legado de problemas clínicos significativos. As complicações resultantes do aborto são a causa de morte maternal em mais de uma em cada quatro mulheres. De uma forma geral, 2 em cada 3 mulheres russas que se submetem a um aborto induzido sofrem complicações de saúde resultantes do procedimento em si, o que agrava ainda mais o estado do sistema de saúde deste país.

A prática do aborto induzido tem sido também responsável pelas elevadas taxas de infertilidade secundária, estimando-se que uma em cada dez mulheres fica estéril depois de se submeter a um aborto. Estes números apenas têm diminuído porque a prática do aborto também tem diminuído como consequência de uma maior informação e disponibilidade de contraceptivos nos anos mais recentes.

O enquadramento

A Rússia sempre apresentou uma elevada taxa de abortos induzidos, cerca de 3 vezes superior à dos Estados Unidos. A sua taxa é uma das mais elevadas em todo o mundo. Esta tendência elevada de abortos é comum em muitos países comunistas ou pós-comunistas. Estima-se que o Vietname, a Roménia e Cuba tenham taxas de aborto ainda mais elevadas que a Rússia, e a China provavelmente o maior número total de abortos. A prática do aborto foi re-legalizada na Rússia na década de 50 e o desejo de ter famílias pequenas, devido em parte à crescente urbanização, contribuiu para que as taxas de aborto se tornassem muito elevadas. Em 1965 as taxas de aborto tinham já subido para mais de 16 abortos por cada 100 mulheres com idade de ter filhos. Apesar dos esforços de implementação de práticas de contracepção (algumas delas desastrosas), a preferência do aborto face à contracepção chegou até à década de 90.

A agravar esta situação, alguns incentivos ajudaram a manter as taxas de aborto elevadas. Até ao final da década de 80, um aborto legal implicava uma hospitalização de três dias. Para o hospital que recebia do estado em função do número de camas ocupadas, esta prática tornava-se rentável. Ainda hoje, os lucros desta prática são um incentivo para alguns médicos realizarem o aborto em lugar de incentivar a contracepção. (1)

O futuro?

Num livro publicado em 2001 com os resultados de um estudo sobre a tendência da demografia na Rússia, os autores referem que os registos russos indicam que um acesso melhor aos contraceptivos podem ajudar a reduzir as altas taxas de abortos. Esta estratégia irá também levar, segundo o estudo, a uma vida reprodutiva mais estável para as mulheres na Rússia e evitar problemas de morbilidade maternal, mortalidade, e esterilidade secundária resultantes do aborto.

Será a Rússia o único pais onde o aborto tem efeitos nefastos? Serão as consequências piores para as mulheres que se submetem ao aborto induzido na Rússia do que o são nos Estados Unidos ou Europa? Ou serão os registos russos mais completos e correctos? (2)

Se estiver interessado numa história da Rússia (publicada na BBC News) e que de certa forma espelha a diferença de mentalidades entre o antigo e o novo, clique aqui.

1. Wulf, D. (1999). Sharing Responsibility: Women, Society, and Abortion Worldwide. The Alan Guttmacher Institute, New York

2. DaVanzo, J. and Grammich, C. (2001). Dire Demographics: Population Trends in the Russian Federation. RAND, 101 pp.

(Agradecemos a M. D. Mateus a autorização para publicar na Aldeia este seu trabalho)