«Parece-lhe que a mulher que aborta deve ir para a cadeia? Ser presa junto com as criminosas? Ser considerada uma criminosa? Por causa dum feto?»

Sobre isto diga-se o seguinte:

1. «Parece-lhe que a mulher que mata o seu bebé recém-nascido deve ir para a cadeia? Ser presa com as criminosas? Ser considerada uma criminosa? Por causa de um bebé?»

2. «Parece-lhe que o esclavagista deve ir para a cadeia? Ser preso com os criminosos? Ser considerado um criminoso? Por causa de uns pretos?»

3. «Parece-lhe que um alemão deve ir para a cadeia? Ser preso com os criminosos? Ser considerado um criminoso? Por causa de uns judeus?»

4. Qualquer defensor do aborto pode invalidar estas analogias dizendo que em todas elas se referem crimes, de facto, enquanto que o aborto não pode ser crime. Simplesmente, para o infanticídio ser crime e o aborto não, é preciso que se consiga distinguir o bebé não nascido daquele que já nasceu. Para tanto, começa-se nas linhas de desenvolvimento, segue-se pelo não se sabe, gradualismo, funcionalismo, infanticídio, acabando na analogia 1.

5. A pergunta dos defensores do aborto, acima, parte de um preconceito tão infundado como o racismo ou o anti-semitismo: assume que o bebé antes de nascer é menos que uma pessoa verdadeira. E isso fica claro quando se refaz as perguntas em termos de escravatura ou anti-semitismo. Só um louco sanguinariamente racista ou anti-semita faria as perguntas de 2. ou 3. Mas só hoje é que a perspectiva é esta. Há cem ou cinquenta anos, procuravam-se activamente razões que permitissem provar que os homens não são todos iguais em dignidade. O mesmo se passa com o aborto. Mas, se os defensores do aborto tivessem o escrúpulo de não o legalizar enquanto não conseguirem a prova de que os fetos não são iguais em dignidade a cada um de nós, muita miséria e muitas desgraças se poderiam poupar por esse mundo fora. Era também esse o escrúpulo que se pedia aos esclavagistas e aos nazis e como eles o não tiveram, muitos crimes horrorosos há a lamentar.

6. Sempre que a Humanidade age sem razão nem freio, tem tendência a cair em dois extremos igualmente errados: ou condena violentamente os erros e as pessoas ou se desculpam simultaneamente ambos. O aborto é um horror e sobre isto não pode haver dúvidas. Mas daí não decorre que as mulheres que fazem abortos são um horror. Isso seria funcionalismo: confundir o que a pessoa é com aquilo que faz. O acto em si, o aborto, tem de ser condenado e tem de acabar porque está errado e é uma abominação. As mulheres que fazem abortos nem são uma abominação, nem têm que ser mortas, humilhadas, ostracizadas, ou sabe-se lá o que mais.

7. O objectivo dos defensores do direito à vida não é meter mulheres na cadeia: é acabar com o aborto. Para que se veja como isto é verdade, atente-se no seguinte: nos Estados Unidos os defensores do aborto colocaram, à disposição da mulher que quer abortar, 1000 (mil) clínicas de aborto (onde a mulher paga bem e se não tiver dinheiro, sem embargo de todo o discurso pró-mulher, não lhe fazem o aborto); paralelamente, os grupos de defesa da vida têm mais de dois mil centros de apoio a grávidas em dificuldades. As pessoas que trabalham nesses centros dedicam-se a encontrar empregos para essas mães, dão alojamento, dão apoio médico e inclusivamente chegam a ir fazer (e pagar) as compras de mercearia de uma qualquer grávida que apoiam. Enquanto os defensores do aborto negam com todas as forças que o aborto cause problemas psicológicos (ou que estes sejam graves), o acompanhamento destas mulheres é uma das grandes actividades dos grupos que defendem a vida.

8. Como se sabe, todos os criminosos de guerra alemães foram perseguidos e todos os capturados foram condenados, por mais idosos que fossem. Não há nenhum criminoso de guerra alemão a denunciar os crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial. Curiosamente, os defensores do direito à vida, acusados de quererem ver as mulheres todas na cadeia, são liderados por ex-defensores do aborto. Há que o recordar: o Dr. Nathanson, Jane Roe, Carol Evrett, outros mais, têm todos imensas responsabilidades na legalização do aborto e são pessoalmente responsáveis por muitos milhares de abortos. E, não obstante, ninguém os enfiou na cadeia, não foram insultados, não foram perseguidos, nada disso: a sua conversão à vida foi recebida com toda a alegria e sem ressentimentos. Isto é como se uma organização dedicada à denúncia dos crimes nazis fosse liderada pelo comandante de Aushwitz.

9. Os defensores do aborto só têm que provar que não há razões para acabar com o aborto. Se eles acham que o aborto deveria acabar, só têm de provar que a legalização do aborto serve esse fim: ajuda a acabar com o aborto. Se a legalização não serve esse fim, e as estatísticas referidas neste livro provam-no, então a legalização do aborto é uma medida que não atinge o objectivo pretendido. Logo, há que proibir o aborto que se não acaba com ele diminui o seu número. Para acabar com ele, bastaria que os defensores do aborto colocassem na ajuda às mulheres em dificuldades o mesmo empenho e militância que colocam na luta para legalizar o aborto, o infanticídio, a eutanásia, a eugenia e sabe-se lá quantos horrores mais.

10. O aborto tem de ser crime por várias razões mais. Em primeiro lugar para que se possa perseguir e julgar os abortadores. Em segundo lugar, para proteger as mulheres que não querem abortar. Uma mulher que não quer abortar pode hoje defender-se dizendo que o aborto é um crime e dá cadeia. Legalizado o aborto, que razões pode uma mulher contrapor ao patrão que lhe sugere um aborto… perfeitamente legal? Em terceiro lugar, o aborto é um horror. Contudo, para o perceber é preciso saber e estudar algumas questões. Como é óbvio, era preferível que todas as pessoas tivessem as ideias claras sobre o assunto, a tal ponto que uma lei fosse desnecessária. Mas essa consciência geral sobre o erro do aborto não existe. Até lá é preciso fazer uma lei que o proíba. Finalmente, a legalização do aborto, dada a identificação que muitos fazem entre legalidade e bondade, diz que o aborto é aceitável e possivelmente uma solução para o seu problema.

(João Araújo, “Aborto, sim ou não?”)