Embora o zigoto provenha da fusão dos gâmetas, existe uma diferença essencial entre eles. O espermatozóide e o óvulo contribuem cada um com 23 cromossomas para a constituição do zigoto. O zigoto, porém, não é biologicamente o resultado de uma simples soma do espermatozóide e do óvulo, mas um ser estritamente diferente e original desde o primeiro instante.

O espermatozóide, com efeito, contém em parte o código genético do pai, o mesmo código que as restantes células do corpo paterno possuem. Neste sentido, é uma célula do pai ou uma parte do seu corpo. Além disso, é uma célula adulta, isto é, alcançou o máximo desenvolvimento requerido para a função que lhe é própria: a fecundação. De sorte que, caso não fecunde um óvulo, não lhe resta outra fase senão a morte. Por sua vez, o óvulo contém em parte o código genético da mãe e é outra célula adulta que também morre se não for fecundada.

Quando, no entanto, os dois gâmetas se unem e surge o zigoto, este contém em si um código genético perfeitamente original e diferente do código do espermatozóide e daquele do óvulo. O zigoto não é uma célula do pai nem uma célula da mãe. Possuí uma mensagem genética própria e irrepetível. Nunca existiu nem existirá na história um ser idêntico a ele. Este código inédito permanecerá já invariável e, de acordo com os condicionamentos impostos pelo meio, desenvolver-se-á autonomamente até à velhice e à morte, sem que nada lhe seja acrescentado de essencial, salvo a nutrição, o oxigénio e o tempo.

O zigoto não é, pois, uma parte do pai ou da mãe, e, longe de ser uma célula adulta, é exactamente o contrário: é um embrião que contém em si próprio todo um futuro desenvolvimento vital. As mesmas semelhanças e as mesmas diferenças essenciais que existem entre os pais e os filhos existem entre os gâmetas e o zigoto. Ninguém que esteja em seu são juízo suspeita de que, apesar da relação de paternidade ou de maternidade, e das semelhanças físicas e temperamentais, o filho não seja um ser distinto e autónomo, mas uma parte do pai ou da mãe. A moderna biologia nada mais faz do que confirmar esta experiência elementar.

Fonte: ABORTO E SOCIEDADE PERMISSIVA, de Pedro-Juan Viladrich, Quadrante, Sociedade de Publicações Culturais