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Uma vez que uma mulher se torna mãe, ela será sempre mãe, tenha ou não nascido o seu filho. O filho morto fará parte da sua vida por mais longa que ela seja. O aborto não é definitivamente uma "solução fácil" de um grave problema, mas um acto agressivo que terá repercussões contínuas na vida da mulher.
Nem imaginas!
Faltaste uns dias ao trabalho, e eu soube que tinhas feito
uma amniocentese.
Quando regressaste, explicaste-me que se trata de um exame
destinado a verificar se o filho que trazes dentro de ti tem alguma doença grave,
como, por exemplo, Síndrome de Down. E que é um procedimento doloroso e incómodo.
Se fosses outra pessoa, eu podia ter adivinhado a resposta
e manter-me calado, mas antes de pensar nisso a pergunta saiu-me. Para que querias
tu saber isso? Só me veio à cabeça que não valia muito a pena preocupares-te
com uma possível dificuldade grande, antes de ela acontecer e sem teres ainda
as energias necessárias para a enfrentar.
Explicaste que, se realmente se verificasse uma doença dessas,
poderias abortar e, dessa forma, resolver o problema.
Não te imaginava capaz de matar um filho. Devo ter ficado
de boca aberta, porque imediatamente atiraste uma série de justificações. Se
eu imaginava como seria a qualidade de vida de uns pais condenados a tratar
de um filho gravemente doente. As horas de fisioterapia, os gastos em medicamentos,
as faltas ao trabalho. E a qualidade de vida que teria a criança. E o que seria
dela depois de os pais morrerem.
Pensei, com tristeza, naquilo que sei acerca da "qualidade
de vida" de algumas pessoas que fizeram abortos voluntários. Tenho a certeza
de que a qualidade de vida consiste em ter alegria e paz, e de que não é possível
tê-las depois de matar um filho.
E de que se pode tê-las passando horas e horas a cuidar de
um filho que precisa muito de cuidados. Muitas mães fortes que conheço, e estão
entre as pessoas que mais admiro, sorriem e cantam quando muitos só conseguem
ver, nas vidas que elas levam, motivos para sofrimentos.
Não posso levar a sério um amor pelo filho que leva a eliminá-lo
para lhe poupar uma doença grave. Se eu tivesse uma doença grave, a minha mãe
cuidaria de mim. Julgo que, embora sem o admitires, estarias mais preocupada
com o teu próprio futuro.
Talvez suceda que algumas circunstâncias da tua vida te tenham
levado a centrares-te demasiado em ti mesma e a esqueceres que são as mães que
existem para os filhos e não os filhos que existem para as mães.
Talvez tenhas sofrido pressões, influências, e estejas a
falhar a interpretação do amor. É que não há amor que seja fácil. Se te acenam
com um assim, é porque ele é falso.
O amor é inseparável da morte. Sabes que amas porque te esqueceste
de que existes; porque morreste para ti mesma, para viveres naqueles que amas.
Se eles estiverem bem, então tu estás bem, ainda que estejas mal.
Amar é dares-te. É não pensares em ti. É não quereres saber
dos teus gostos, do teu bem-estar, do teu descanso, dos teus projectos, do teu
futuro, por andares muito ocupada em construir aqueles que te rodeiam. É veres
nessa morte para ti mesma o sentido e a plenitude da tua existência. Quanto
mais deres de ti, quanto mais te doer o teu amor, mais alegria terás. E mais
paz. Porque amas mais.
Não é possível, evidentemente, aplicar isto ao comportamento
de uma mulher - ainda me recuso a pensar que fosses capaz de fazer isso - disposta
a matar o seu filho para evitar os problemas que teria com a sua vinda ao mundo.
Se falhares o amor, falharás a vida e a existência. O filósofo
dinamarquês Kierkegaard teve esta expressão magnífica: "Enganar-se a respeito
da natureza do amor é a mais espantosa das perdas. É uma perda eterna, para
a qual não existe compensação nem no tempo nem na eternidade: a privação mais
horrorosa, que não é possível recuperar nem nesta vida... nem na futura!"
Talvez suceda que coisas que viveste, ou viste ao teu redor,
te tenham levado a teres medo, e a fazeres com base nele os projectos para a
tua felicidade. Mas o medo faz encolher.
Não tenhas medo. Não queiras controlar tudo. Não julgues
que a felicidade tem o pequeno tamanho que a tua comodidade te sugere. Há muitas
coisas para além desse horizonte estreito. Deixa que a vida te leve a esses
lugares que receias pisar. Não pressentes que aí descobrirás muitas coisas e
te descobrirás a ti mesma?
Quando os acontecimentos escapam ao teu domínio, e te arrastam
para onde não quererias ir, o resultado é sempre surpreendente e enriquecedor.
Forçada a desafios inesperados, vês brotar de ti forças e capacidades que desconhecias;
cresces por dentro; descobres luzes novas e uma nova dimensão de todas as coisas;
aprendes que não estás só. É como se alguém, com pena de ti, te conduzisse a
um lugar maravilhoso onde nunca saberias chegar com os teus pequenos projectos.
Não há amor que não exija coragem. E é também certo que se
o teu amor for verdadeiro - e não uma forma disfarçada de procurares a tua satisfação
pessoal - terás toda a coragem de que necessitas. Tu ainda não sabes o que és
capaz de fazer! Não imaginaste, sequer, aquilo que há para além da curva do
medo! Tens andado a fugir... de ti e da felicidade.
Paulo Geraldo
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