Eu tinha apenas 17 anos

 

Os 27 anos de Alicia e a sua jovialidade escondem um sofrimento atroz. Aos 17 anos, fez um aborto, coagida e intimidada pelo companheiro. Reconhece agora que se deixou levar por ele em tudo, e arrepende-se profundamente de ter perdido voluntariamente um filho.

Naquela altura, eu tinha apenas 17 anos. O meu companheiro tinha mais alguns, várias relações anteriores e um filho pequeno que mimava em tudo. Reconheço que, para aquela criança, o Carlos era um bom pai. Eu estava verdadeiramente apaixonada e nunca tinha estado com outra pessoa. Para ele, a relação não era clara e decidimos viver juntos para solucionar isso, mas não serviu de nada. O Carlos só me usava para fazer amor e eu era incapaz de me aperceber disso. Fazia tudo o que ele me pedia. Qualquer que fosse a hora a que ligasse, eu ia sempre. E, numa dessas noites, fiquei grávida. A sua reacção foi instantânea:
– Acaba com isso, tu não vais ser capaz de criá-lo.

Ele tinha um bom emprego, um bom ordenado e uma vivenda acabada de estrear. E eu não tinha nada.
– Se o tiveres, tiro-to – ameaçava.

Imagino que foi por ver a minha cara de medo que tentou adocicar com carícias o que dissera. Explicou-me ternamente que eu era demasiado jovem para ser mãe, e eu acreditei nele. Além disso, ofereceu-se para pagar e resolver tudo.

Fizeram-me o aborto numa clínica privada. Era tudo muito frio, incluindo as pessoas que me atenderam. Fizeram-me uma ecografia que não me deixaram ver.
– É uma gestação de três meses. É preciso fazê-lo depressa, porque depois será mais caro… – diziam.

Repetiram muitas vezes a palavra “rápido” E assim foi tudo. Senti que se me descolava o estômago.
– Sabemos que isto é o melhor, a única coisa que podes fazer… -tranquilizavam-me.

Lembro-me de tudo porque a anestesia foi local. Assim, era mais barato. Não sei se durou muito ou pouco tempo. Sei que no fim assinei um papel em que declarava que saía da clínica pelo meu próprio pé e sem sangrar. Mas não era verdade: o penso que me deram ia ensopado em sangue quando chamaram um táxi para me levar de regresso a casa. Não me lembro de mais nada. Ou talvez não queira lembrar-me…

Embora as más sensações não tenham desaparecido, parece-me tudo muito distante. Tudo mudou, desde então. Hoje sou mãe de uma menina, tenho outro companheiro e sou feliz. Não guardo rancor ao Carlos, continuo inclusivamente a considerá-lo meu amigo. Mas o que sei é que nunca mais me entregarei a um homem daquela maneira.

Nunca tinha falado do meu aborto e alegra-me que possa ser útil a alguém. Só espero que mais ninguém passe pela mesma dor sem sentido por que eu passei. O aborto é uma coisa muito má para qualquer mulher e a minha experiência é totalmente negativa, tal como a de muitas mulheres que sofrem discriminação de género por esta via. O aborto é uma forma de instrumentalização da mulher: usam-nos a nós e aos nossos filhos. Não há direito que os pais se descartem assim do fruto da sua concepção. Não há direito ao aborto.

(In “Eu abortei – Testemunhos de abortos provocados”, de Sara Martín Garcia, Editora Principia)
Nota da autora: A minha participação neste livro consistiu em compilar e ordenar estes testemunhos, dando-lhes a forma de histórias e uma unidade. Todos eles são reais, embora, na maioria dos casos, os nomes utilizados sejam fictícios, para proteger a privacidade dos autores.