Aborto e trauma

Aborto e traumaA experiência do aborto pode ser traumática para as mulheres por variadas razões. Muitas são forçadas a fazê-lo pelos maridos, namorados, pais ou outros (casos recentes reportados nas notícias mostram que muitas prostitutas são obrigadas pela “entidade empregadora” a submeter-se a abortos sempre que engravidam). Se a vida destas mulheres é caracterizada pelo abuso resultante do domínio forçado por parte de outra pessoa (o marido será um exemplo frequente em Portugal), a sujeição a um aborto não desejado pode ser encarada como a humilhação ou violação final.

Outras mulheres, independentemente das razões que as levam a sujeitar-se a um aborto, podem ainda encarar esta prática como a morte violenta do seu próprio filho. Algumas mulheres chegam mesmo a referir que a dor provocada pelo procedimento do aborto, aliada ao facto de ser infligida por um estranho de mascara, poder ser comparada a uma violação ou invasão do seu corpo. (1)

Alguns sintomas referidos por mulheres sujeitas a um ou mais abortos são: pensamentos recorrentes sobre o aborto ou a criança abortada, sensações momentâneas em que a mulher relembra ou sente algum aspecto relacionado com a sua experiência do aborto, pesadelos sobre o aborto ou a uma criança abortada, reacções de angústia intensa ou depressão no aniversário da data do aborto.

Para além das muitas formas da reacção de trauma consequentes de um aborto induzido, estas variam também no tempo. Muitas mulheres experimentam um período inicial de remorsos e mais tarde encontram algum alívio emocional, enquanto que outras mulheres lidam bem com a situação após o aborto e só mais tarde experimentam problemas emocionais. Num estudo realizado entre 260 mulheres que experimentaram reacções negativas pós-aborto, entre 63 a 76% referiram a existência de um período em que negaram quaisquer sentimentos negativos relacionados com o aborto. O período médio de negação apresentado como conclusão deste estudo foi de 63 meses. (2)

Muitas mulheres que se submetem a um aborto chegam a sofrer daquilo que se designa desordem de stress pós-traumático. Um estudo realizado mostrou que 1,4% das mulheres que se sujeitam a um aborto nos EUA sofrem desta desordem como resultado do seu aborto e que, de um modo geral, os sentimentos negativos aumentavam e a satisfação com a escolha diminuía com o passar do tempo. (3) No entanto, este estudo também demonstrou que grande parte das mulheres não experimenta problemas psicológicos ou arrependimento em relação ao seu aborto num período de 2 anos pós-aborto. Apesar da percentagem de mulheres afectadas por esta desordem ser baixa, só nos EUA este número abrange cerca de 18.200 novos casos anualmente, o que implica mais de meio milhão desde que o aborto foi legalizado em 1973.

Um outro estudo realizado na Suécia a partir de entrevistas feitas a mulheres no período de um ano após se terem submetido a um aborto, revelou que cerca de 60% das mulheres (de uma amostra de 854) experimentaram stress emocional após o aborto. (4) Em 16% das mulheres este stress foi classificado como “severo”, tornando necessários cuidados psiquiátricos. Cerca de 70% das mulheres também referiram não voltar a considerar o aborto induzido como opção se fossem novamente confrontadas com uma gravidez não desejada.

1. Francke, L.B. (1978). The Ambivalence of Abortion. Dell Publishing, New York.

2. Reardon, D. (1994). Psychological Reactions Reported After Abortion. The Post-Abortion Review 2(3):4-8.

3. Major, B., Cozzarelli, C., Cooper, M.L., Zubek, J., Richards, C., Wilhite, M. and Gramzow, R.H. (2000). Psychological responses of women after first-trimester abortion. Archives of General Psychiatry 57(8):777-784.

4. Soderberg, H., Janzon, L. and Sjoberg, N.O. (1998). Emotional distress following induced abortion – A study of its incidence and determinants among abortees in Malmo, Sweden. European Journal of Obstetrics Gynecology and Reproductive Biology 79(2):173-178.

(Agradecemos a M. D. Mateus a autorização para publicar na Aldeia este seu trabalho)

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