Aborto: Outono

Escrevo num dia cinzento de início de Setembro. É uma espécie de Outono antes do Outono e há em mim algo de tristeza. Mas vou, apesar disso, continuar a escrever.

A televisão está cheia de imagens de crianças mortas num massacre terrorista na Rússia. As capas dos jornais estão cheias de imagens de crianças mortas. O mundo por vezes dói-me demasiado.

Um barco, ao largo do porto da Figueira da Foz, reclama o direito de se fazerem abortos. Um ou outro político repete a afirmação tola, sem consistência, de que “o aborto é uma questão da consciência de cada um”. Entrevistas de rua mostram pessoas a dizer que sim, que a lei devia permitir que se abortasse.

Não sabem de que estão a falar: anos e anos de propaganda, de esvaziamento intelectual, de promoção da superficialidade produziram pessoas que têm opinião sobre tudo sem saberem minimamente de que falam. Pessoas – boas, conheço-as bem – que não pensam muito e que não procuram conhecer profundamente a realidade; que se limitam a repetir o que ouvem na televisão, o que lêem à pressa nos jornais.

A televisão está cheia de imagens de crianças mortas. As capas dos jornais estão cheias de imagens de crianças mortas. E eu fui procurar as imagens das crianças que o aborto matou. Imagens que a televisão e os jornais nunca mostram. Procurei na internet…

Entrei numa página, em http://fotosaborto.deog.net (vão lá também, se quiserem; se quiserem, porventura, saber melhor de que falam quando falam de aborto). São imagens em tudo iguais às outras que a televisão tem mostrado. Crianças exactamente iguais às que foram assassinadas na Rússia, num primeiro dia de aulas, e que o mundo tem chorado nestes dias. Crianças igualmente inocentes e igualmente cobertas de sangue. Flores arrancadas prematuramente, sorrisos apagados antes de tempo. Olhei longamente e não as distingui daquelas que os jornais têm mostrado.

Qualquer raciocínio, qualquer lei, qualquer tentativa de solução, qualquer opinião sobre o aborto, para ser válida, deve partir da realidade e não dos interesses ou das conveniências. O aborto actua sobre aquilo que há dentro de uma mulher que está para ser mãe, e provoca o que estas imagens mostram. Há uma realidade, e não podemos abdicar dela sem abdicarmos da honestidade. Se fizerem os tais debates sobre esta questão, pendurem primeiro estas imagens nas paredes da sala e conversem depois.

Dói o que aconteceu há dias na Rússia, mas o aborto é muito pior: faz muito mais vítimas e fá-las todos os dias.

Não, não é “uma questão da consciência de cada um”. Pelo menos enquanto não for permitida à consciência de cada um a possibilidade de escolher entrar numa escola e matar crianças à bomba. O Estado – e cada um de nós – tem a obrigação de intervir. E se não intervém é criminoso.

Uma mulher de aldeia, russa, dizia dos assassinos de Beslan: “Não são gente humana”. Matar crianças sem dar nas vistas, a coberto de uma lei iníqua, é tão monstruoso como matá-las diante das câmaras de televisão.

Disse Prat: “Sempre que alguém afirma que dois e dois são quatro e um ignorante lhe responde que dois e dois são seis, surge um terceiro que, em prol da moderação e do diálogo, acaba por concluir que dois e dois são cinco…”.

A lei que temos em Portugal sobre o aborto é uma lei do tipo de “dois e dois são cinco”. Mostra como se manobra sinuosamente entre as enormes pressões dos poderosos que lucram de algum modo com o aborto e um desejo, já muito fraco, de prestar algum tributo à verdade.

Desculpem. Hoje foi assim. Amanhã haverá talvez um pouco mais de sol…

Paulo Geraldo