«A mulher deve ter a possibilidade de escolher o que lhe parece melhor. Numa sociedade democrática as pessoas são livres. Eu não sou a favor do aborto: sou a favor da liberdade de escolha.»

Uma vez mais este slogan tem problemas graves:

1. «A mulher deve ter a possibilidade de escolher o que lhe parece melhor. Numa sociedade democrática as pessoas são livres. Eu não sou a favor do infanticídio: sou a favor da liberdade de escolha.»

2. «Toda a pessoa deve ter a possibilidade de escolher o que lhe parece melhor. Numa sociedade democrática as pessoas são livres. Eu não sou a favor da escravatura: sou a favor da liberdade de escolha.»

3. «A mulher deve ter a possibilidade de escolher o que lhe parece melhor. Numa sociedade democrática as pessoas são livres. Eu não sou a favor do trabalho infantil: defendo que os pais devem ter o direito de escolher livremente o que querem para os seus filhos.»

4. «Os homens devem ter a possibilidade de escolher o que lhes parece melhor. Numa sociedade democrática as pessoas são livres. Eu não sou a favor da violação (pedofilia, roubo, assassínio, etc.). defendo que o violador (pedófilo, ladrão, assassino, etc.) deve ter liberdade de escolha.»

5. Como sempre todas estas comparações podem ser anuladas dizendo que em todos os casos referidos (infanticídio, escravatura, trabalho infantil, violação, pedofilia, roubo, assassínio, etc.) referem-se os direitos de duas ou mais pessoas, enquanto que no aborto estão em causa os direitos de uma pessoa e os direitos de um feto (ou uma coisa, ou um não se sabe bem o quê). Portanto, a única questão pendente é conseguir separar o feto do recém-nascido. Exactamente aquilo que ninguém conseguiu fazer.

6. Há decisões que a sociedade deixa à livre escolha de cada um (por exemplo, ir à praia ou ao cinema) e há actos que a sociedade não deixa à livre escolha de cada um (por exemplo, matar o vizinho numa reunião de condomínio). No aborto está em questão saber se abortar é um acto deixado à livre escolha de cada um ou, se pelo contrário, é um acto que a sociedade não pode deixar à escolha de cada um. Dizer que «Eu não sou a favor do aborto: sou a favor da liberdade de escolha» é provar a tese a tese a partir da tese. Precisamente, o que se pretende saber, é se o aborto é um acto que pode ser deixado à escolha de cada um. Além disso, dizer que «Numa sociedade democrática as pessoas são livres pelo que podem escolher o que lhes parece melhor» é dizer que todos os actos, numa sociedade democrática, são passíveis de escolha livre: nenhum acto, por mais criminoso que seja, pode ser retirado à livre escolha de cada um.

7. Ainda que tudo isto esteja errado, se o slogan for certo teremos de legalizar todos os abortos, pois o slogan não explica porque salta a vida do bebé com sete meses de gestação para fora da liberdade de escolha da mãe.

(João Araújo, “Aborto, sim ou não?”)