Não existem garantias do que a escolha de abortar é uma decisão da mulher que se submete a este procedimento. O argumento baseado na premissa que a liberalização do aborto dá à mulher possibilidade de escolha pode ser, em alguns casos, enganoso. Num livro publicado em 2002 (1), o Dr. Reardon (com inúmeros estudos publicados em jornais científicos sobre assuntos relacionados com o aborto) menciona que 52% das mulheres nos EUA que sofrem de trauma pós-aborto referem ter sido forçadas por outros a fazer um aborto que não desejavam. Ainda que o aborto por coação continue punível por lei, a participação desta ocorrência por parte da vítima acaba por não acontecer, como geralmente ocorre em casos de violência doméstica. Direito das mulheres à escolha? Nem sempre.

Ainda nos EUA, os relatórios de uma entidade designada de National Abortion Federation, com várias clínicas de aborto espalhadas no país, mostram que uma em cada cinco mulheres que procurou serviço nas suas clínicas se opunha moralmente ou filosoficamente ao aborto (2). Porque motivo, então, se sujeitaram a ele?

Alguns investigadores da Universidade de Hong Kong realizaram um estudo comparativo de violência doméstica entre mulheres que procuravam o aborto, com outras pacientes de ginecologia (3) e verificaram que a prevalência de abuso ao longo da vida do grupo que procura aborto foi significativamente mais elevado (27,3%) do que nas pacientes gerais de ginecologia (8,2%). Os resultados sugerem que a violência doméstica pode estar por detrás de uma decisão de abortar.

A ligação entre a violência doméstica e a incidência do aborto tem sido alvo de estudo nas últimas décadas. Um estudo (4) realizado nos EUA entre 2500 mulheres que usufruíam de apoio financeiro mostrou que:
Entre as mulheres que se sujeitaram ao aborto

  • 22,7% referiram ter sido sujeitas a abusos físicos enquanto crianças
  • 23,6% referiram ter sido abusadas sexualmente enquanto crianças
  • 23,3% referiram ter um parceiro violento

Entre as mulheres que nunca se sujeitaram a um aborto

  • 10,7% referiram ter sido sujeitas a abusos físicos enquanto crianças
  • 7.8% referiram ter sido abusadas sexualmente enquanto crianças
  • 11.8% referiram ter um parceiro violento

Vários estudos parecem indicar a existência de uma ligação entre o aborto e um passado ou presente marcado pela violência. A existir esta ligação, mulheres nestas condições necessitam de uma ajuda que a simples despenalização do aborto não pode fornecer. Despenalizar ou legalizar o aborto pode, em alguns casos, lançar um olhar permissivo ao abuso das mulheres.

1. Reardon, D. (2002). Aborted Women, Silent No More. Acorn Books, Springfield, IL.

2. Woo, J., 1994. Abortion Doctor’s Patients Broaden Suits, Wall Street Journal, pp. B12 (October, 28).

3. Leung, T.W., Leung, W.C., Chan, P.L. and Ho, P.C. (2002). A comparison of the prevalence of domestic violence between patients seeking termination of pregnancy and other general gynecology patients. International Journal of Gynecology & Obstetrics 77(1):47-54.

4. Russo, N.F. and Denious, J.E. (2001). Violence in the lives of women having abortions: Implications for practice and public policy. Professional Psychology-Research and Practice 32(2):142-150.

(Agradecemos a M. D. Mateus a autorização para publicar na Aldeia este seu trabalho)