Slogan: «Proibir o aborto é uma discriminação das mulheres pobres. As ricas podem ir ao estrangeiro, ou a clínicas privadas, fazer o aborto com toda a segurança. As pobres sujeitam-se a sórdidos vãos de escada».

Sobre isto diga-se o seguinte:

1. «Proibir a escravatura é uma discriminação das mulheres pobres. As ricas podem contratar empregadas que lhes fazem todo o serviço. As pobres têm que fazer o trabalho pelas suas mãos».

2. «Proibir o homicídio é uma discriminação dos pobres. Os ricos quando querem eliminar alguém podem contratar assassinos profissionais que lhes fazem o serviço. Os pobres têm que fazer o trabalho por suas mãos».

3. «Um pedófilo rico pode ir ao terceiro mundo. Um pobre não. Proibir a pedofilia é discriminação!»

4. Muitas culturas desenvolveram hábitos bizarros relativamente aos filhos (deixar os recém-nascidos dois dias ao relento, entalar a cabeça, entrapar os pés, etc.). Todas essas práticas foram proibidas, apesar de serem uma «discriminação dos pobres. Os ricos que se quisessem manter fieis à tradição, poderiam ir ao estrangeiro, onde a prática não fosse proibida. Os pobres tinham de se sujeitar.» Aceitando o slogan ainda hoje Esparta deixaria bebés ao relento e as chinesas seriam entrapadas.

5. Atendendo ao que se escreveu sobre os perigos inerentes do aborto, quer para a saúde física quer para a saúde mental, há que reconhecer que proibir o aborto é discriminação positiva a favor das mulheres pobres. Como se pode alguém sentir infeliz por não ter dinheiro para comprometer de forma séria a sua saúde física e comprometer definitivamente o seu equilíbrio mental?

6. As mulheres ricas estão tão proibidas de abortar como as pobres. Logo, a lei não faz nenhuma discriminação. O que se passa é que, aceitando o slogan, as mulheres ricas têm mais facilidade em transgredir a lei impunemente. Levando o “argumento” da discriminação até ao fim, haveria de se legalizar todos os crimes. Porquê? Porque o facto da polícia não capturar todos os criminosos é uma discriminação contra os capturados.

7. O aborto é aceitável ou não? Se é aceitável, proibi-lo não é discriminar as mulheres pobres: é negar-lhes algo a que têm direito. E se o aborto não é aceitável, para a questão da legalização, que importância tem o facto de nem todos os infractores serem apanhados? Como podemos aceitar o inaceitável?

(João Araújo, “Aborto, sim ou não?”)