A ligação entre o aborto induzido e o aumento do risco de cancro da mama tem sido uma das relações causa/efeito mais disputadas na discussão sobre as sequelas físicas do aborto. Ainda recentemente foi publicado mais um estudo sobre o assunto e que, nas palavras dos seus autores, “põe termo à discussão” ao mostrar não existir qualquer ligação entre o aborto e o cancro da mama (1). Mas muitas vozes dentro da comunidade científica e médica já se levantaram contra a validade e exactidão deste estudo (2). Pouco tempo antes deste estudo ter sido publicado, um outro (ou outro mais) referia precisamente o contrário, mostrando que não só a ligação está provada para além de qualquer dúvida, como ainda defende ser um crime não informar as mulheres que procuram um aborto de potenciais problemas futuros. (3)

A explicação convencional para a ligação do aborto ao cancro da mama prende-se com as características do desenvolvimento do peito durante o período de gestação. Durante os dois primeiros trimestres da gravidez, o peito da mulher sofre uma proliferação explosiva de células devido ao aumento acentuado da produção da hormona feminina estrogénio. À medida que a gravidez se desenvolve, o peito contém cada vez mais células indiferenciadas e vulneráveis ao cancro. É apenas no terceiro trimestre que estas células se diferenciam em células produtoras de leite, tornando-se menos vulneráveis a agentes cancerígenos. Se a gravidez nunca atinge o terceiro trimestre, por ser interrompida prematuramente, é retirada a protecção natural contra o cancro da mama que uma gravidez completa fornece. Esta interrupção aumenta também o risco de cancro muito para além daquele que a mulher teria se nunca tivesse ficado grávida em primeiro lugar.

O risco de cancro da mama quase duplica após um aborto e pode ainda aumentar após dois ou mais abortos (4). Até recentemente, dos trinta e sete estudos publicados que tentavam estabelecer uma ligação entre o aborto induzido e o cancro da mama, vinte e oito mostravam haver uma ligação. Sete deles chegam a referir a duplicação do aumento do risco.

No ano de 2000 um médico inglês, Thomas Stuttaford, referiu num artigo publicado no The Times of London estar céptico no que diz respeito a esta relação. Mas o amontoar de provas sobre ela levou o mesmo médico a escrever algum tempo depois (17 de Maio, 2002) no mesmo jornal: “O cancro da mama é diagnosticado em 33.000 mulheres no Reino Unido todos os anos; destas mulheres, uma proporção elevada não habitual teve um aborto antes de eventualmente começar uma família. Tais mulheres têm quatro vezes mais probabilidade de desenvolver cancro da mama.”

A conclusão de um estudo realizado recentemente, o qual foi baseado numa análise comparativa de 61 resultados publicados em outros estudos, foi: “Os resultados suportam a inclusão do aborto induzido entre os factores independentes de risco significante de cancro da mama (…). Apesar do aumento de risco ter sido relativamente baixo, a elevada incidência do cancro da mamã e do aborto induzido sugerem um impacto substancial de milhares de casos de excesso por ano actualmente, e um impacto potencialmente maior no próximo século, à medida que o primeiro grupo de mulheres expostas ao aborto legal induzido continuar a envelhecer.” (5)

Outro estudo também recente, apresenta uma conclusão semelhante: “Os dados científicos e fisiológicos fornecem provas esmagadoras da espada de dois gumes da gravidez no que respeita ao cancro da mama (6). Uma gravidez levada até ao fim fornece protecção contra o risco de cancro, especialmente em mulheres jovens durante a primeira gravidez. Pelo contrário, interromper a gravidez com um aborto induzido, especialmente quando a mulher é muito nova e é a sua primeira gravidez, pode aumentar significativamente o risco de cancro da mama (…) A maior parte dos factores de risco de cancro da mama estão fora do controlo humano, mas o aborto induzido é uma questão de escolha e, com avisos e informação, a sua influência como factor de risco pode ser diminuída.”

Ainda a este respeito, um estudo mais recente conclui que “apesar de permanecer incerto se o aborto electivo aumenta o cancro da mama subsequente, é certo que a decisão de abortar e atrasar a gravidez culmina numa perda de protecção em que o efeito final é um risco aumentado.” (7)

Nos casos de pacientes que enfrentam um procedimento cirúrgico ou até mesmo uma terapia médica como a substituição de hormonas, é geralmente dado conhecimento sobre as potenciais ameaças à sua saúde futura, mesmo que esses efeitos sejam infrequentes noutros pacientes e não completamente provados. Porque haveria de ser diferente em relação ao aborto? Para mulheres que contemplam o aborto, a informação sobre as evidências que apontam para um aumento do risco de cancro deve ser ponderada na tomada de decisão. Mesmo no caso de mulheres que já se submeteram a um ou mais abortos, ao serem informadas da possível ligação poderão tomar medidas especiais de redução do risco como por exemplo um controlo mais frequente. Ao ser omitida esta informação, nega-se uma oportunidade de prevenção.

1. Beral, V. and e. al. (2004). Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer. Lancet 363:1007-1016.

2. Reardon, D. C. (2004). Abortion and Breast Cancer. Lancet 365:1910-1911.

3. Malec, K. (2003). The Abortion-Breast Cancer Link: How Politics Trumped Science and Informed Consent. Journal of American Physicians and Surgeons 8(2):41-45.

4. Howe, H.L., Senie, R.T., Bzduch, H. and Herzfeld, P. (1989). Early Abortion and Breast-Cancer Risk among Women under Age 40. International Journal of Epidemiology 18(2):300-304.; Remennick, L.I. (1990). Induced-Abortion as Cancer Risk Factor – a Review of Epidemiologic Evidence. Journal of Epidemiology and Community Health 44(4):259-264.; Pike, M.C., Henderson, B.E., Casagrande, J.T., Rosario, I. and Gray, G.E. (1981). Oral-Contraceptive Use and Early Abortion as Risk-Factors for Breast-Cancer in Young-Women. British Journal of Cancer 43(1):72-76.

5. Brind, J., Chinchilli, V.M., Severs, W.B. and SummyLong, J. (1996). Induced abortion as an independent risk factor for breast cancer: A comprehensive review and meta-analysis. Journal of Epidemiology and Community Health 50(5):481-496.

6. Lucille, C. (1997). Breast Cancer Risk: Protective Effect of an Early First Full-Term Pregnancy Versus Increased Risk of Induced Abortion. Oncology Nursing Forum 24(6):1025–1031.

7. Thorp, J.M., Hartmann, K.E. and Shadigian, E. (2003). Long-term physical and psychological health consequences of induced abortion: Review of the evidence. Obstetrical & Gynecological Survey 58(1):67-79.

(Agradecemos a M. D. Mateus a autorização para publicar na Aldeia este seu trabalho)