Este é um slogan muito vulgar: «O aborto mata um feto, não mata um bebé.»

Mas também este slogan tem muitos problemas:

1. Da mesma forma se pode dizer: «O infanticídio não é homicídio. Mata-se um bebé, não se mata um adulto (ou uma pessoa).»

2. «Um escravo é um preto, não é uma pessoa.»

3. «Eu bato numa mulher, a minha mulher, não bato numa pessoa».

4. Como sempre o efeito destas analogias pode ser anulado alegando que bebés, pretos e mulheres são pessoas enquanto que o feto não é. Mas então o aborto resulta do facto de o feto não ser pessoa: não do facto de se chamar feto. Mas porque não é o feto pessoa? Bom, para provar isso começa-se pelas linhas de desenvolvimento, passa-se ao não se sabe, depois ao gradualismo para acabar no funcionalismo e no infanticídio. Mas não é verdade que a analogia 1 era invalidada alegando que o bebé já é pessoa?

5. Feto é uma palavra latina que significa criança pequena. Literalmente, o slogan acima significa: «O aborto mata uma criança pequena, não mata um bebé.»

6. A palavra feto é uma mera etiqueta. Tal como bebé, criança ou adolescente. Todas estas palavras são usadas para simplificar a linguagem, não para definir a natureza do ser. Um adolescente é uma pessoa com mais de 11 e menos de 17 anos. Portanto a palavra adolescente refere-se a uma característica das pessoas (uma certa idade) e serve para designar de forma económica esse grupo. Do facto de ser conveniente usar uma terminologia mais simples – “adolescente” em vez de “pessoa com mais de 11 e menos de 17 anos”-, não resulta que da terminologia decorram direitos.

7. Este slogan é tão primário quanto vulgar. Por isso mesmo, por ser tão disparatado e tão usual, temos o seguinte que é pouco menos que inacreditável: « A Associação Sueca de Ginecologistas apresentou ao governo a exigência de uma reforma legislativa que altere a actual denominação de feto utilizada nas primeiras semanas de gravidez. Este grupo profissional defende que, se se chamar criança ao feto, logo desde o início, se poderia evitar a prática de grande número de abortos. O documento publicado refere que o problema do aborto requer uma solução urgente e que a mulher sueca, por muito moderna que seja, deve compreender que não se trata de extrair um membro ou fragmento doente do seu corpo mas sim de uma criança que está em perigo e que é necessário salvar. Os médicos afirmam que, se os pais lessem nos folhetos clínicos e ouvissem nas consultas médicas a palavra criança, filho ou bebé, em vez de feto ou embrião, compreenderiam que o aborto consiste em suprimir uma criatura humana, o seu próprio filho. Lars Jacobsen, presidente do Conselho de Ética Médica, manifestou já o seu apoio total a esta iniciativa e propôs que todos os fetos abortados passem a ser inscritos no Registo Civil.» (Acção Médica, nº4, Ano LXI, Out/Nov/Dez 1997, p.52)

(João Araújo, “Aborto, sim ou não?”)